quinta-feira, 17 de março de 2016

Igreja: chamados para fora - parte 3/3

Eclesiologia Missional


IGREJA: CHAMADOS PARA FORA

3. Olhando a partir do centro...

Novamente Jesus disse: “Paz seja com vocês! Assim como o Pai me enviou, eu os envio” (Jo 20.21).

Como temos visto nos estudos anteriores, a igreja, CHAMADA PARA FORA, possui uma natureza que é, eminentemente, missional. Ela, por isso, volta-se para o mundo e dialoga com ele. Busca ser compreendida e revelar Deus às nações, bem como ser bênção na realidade onde está inserida. Percebemos, ainda, que essa perspectiva está revelada desde a história de Israel, a qual tem seu início no chamado de Abraão. Não há dúvida, Deus é missionário e deseja que seu povo também o seja. Estar em missão, enfim, é ser igreja.

É interessante observar, porém, que a tarefa missionária tem em Jesus o modelo por excelência: “Assim como o Pai me enviou, eu os envio”. O anúncio do Reino de Deus se deu através da encarnação. Jesus assume a história do seu povo tornando-se “Deus conosco” e habitando “entre nós, cheio de graça e verdade” (Jo 1.14). Esse texto nos remete diretamente a necessidade de contextualização. A encarnação, aqui, revela Deus de forma compreensível entre as pessoas de uma determinada cultura – no caso, o povo de Israel. Assim, na pessoa de Jesus, Deus se fez presente entre nós e viveu seu contexto histórico, social, econômico, político e religioso. Jesus, portanto, conhecia a realidade onde estava inserido e agiu integrando essa realidade com a vontade de Deus. O Deus-homem, assim, assumiu a condição humana e cultural em sua totalidade. Para o povo de Deus, o qual é enviado como Jesus, isso significa “nascer de novo” em cada contexto específico.

E como a igreja pode nascer de novo em sua localidade? A exemplo de Jesus que se fez aprendiz durante trinta anos no povo judeu antes de se revelar como Filho de Deus, a igreja deve compreender os usos, costumes, valores e cosmovisão da comunidade onde está inserida. Apenas dessa forma poderá comunicar a mensagem do evangelho com fidelidade e clareza. Ela deve, portanto, aprender a pensar como as pessoas não-crentes pensam e a viver como elas vivem, evitando uma grande disparidade entre estilos de vida. Ser enviado como Jesus implica em valorização da “cultura do outro” e em aprender a colocar a “cultura da igreja” em segundo plano, visto ser ela confortável apenas para quem já é crente. Na prática, significa que a igreja precisa rever sua cultura eclesiástica: identificar o que é expressão cultural oriunda de sua tradição histórica e buscar uma relevância contemporânea e local. Isso não significa abandonar o conteúdo e os valores do evangelho, mas apenas ajustar a forma de expressá-lo. O desafio é estar no mundo sem ser do mundo (Jo 17.15-18).

Nessa perspectiva, é possível encontrar na Bíblia vários exemplos onde Jesus se comunica a partir de sua realidade: Mt 4.19 – pesca para pescadores; Mc 4.1-20 – semeador para agricultores; Jo 15.1-6 – videira para produtores de vinho; Jo 10.1-18 – ovelhas para pastores; Mt 22.15-22 – moeda para homens que entendiam de tributos. O mesmo pode ser observado em relação aos apóstolos: At 10.9-16 – Pedro e o centurião Cornélio; At 17.15-31 – discurso de Paulo para os religiosos em Atenas; Gl 2.7-8 – Pedro era apóstolo da circuncisão e Paulo da incircuncisão; I Co 9.19-22 – Paulo se faz de tudo para com todos, a fim de salvar alguns.

Entretanto, apesar dos exemplos bíblicos, Jesus não deixou simples receitas, fórmulas ou métodos para seus seguidores. Na verdade, ele é o modelo de identificação total que precisamos observar. Ele nos mostra como devemos traduzir a mensagem do evangelho em relacionamentos amorosos e ações sociais que refletem a atitude de serviço e solidariedade.

A igreja CHAMADA PARA FORA, assim, enfrenta o desafio de comunicar o evangelho dentro do seu contexto. No caso da realidade brasileira, significa lidar com a violência generalizada, o uso de drogas, a má distribuição de renda, a impunidade, a sensualidade, o individualismo e a superficialidade espiritual. A pergunta que surge é: como podemos encontrar as pessoas em situações concretas, compreender suas questões e, ao mesmo tempo, desenvolver um estilo de vida “encarnacional”?

Diálogo com a cultura

Dialogar com a cultura sempre foi e sempre será um desafio do povo de Deus. Isso ocorre desde os tempos de Israel, quando ele deveria viver sua fé em meio às nações pagãs de modo a glorificar a Deus. Nesse sentido, embora houvesse a exigência da adoração exclusiva a Deus revelado por Moisés, o povo judeu também foi influenciado pelas nações vizinhas. Esse é o caso, por exemplo, de muitas composições de salmos e provérbios (Sl 11, 29 e 45 são de origem cananéia e adaptados para o uso israelita; Pv 22.17-23.11 é baseado nas Máximas de Amenemope; entre outros). As semelhanças com a literatura considerada pagã, então, podem nos mostrar que os louvores, orações e ditos de sabedoria tomavam uma forma facilmente compreendida pelos povos vizinhos de Israel e direcionava o louvor universal a Deus. Isso aponta para o fato de que o diálogo cultural sempre foi possível.

Outro olhar para o Antigo Testamento também mostra essa possibilidade. Embora Gênesis 3 registre a queda da humanidade e Gênesis 4 o assassinato de Abel pelas mãos de Caim, são os descendentes deste que são apresentados como inovadores da cultura, erguendo cidades, criando animais para seu sustento, produzindo instrumentos musicais e ferramentas de metal (Gn 4.17-22). Assim, apesar da condição de criaturas decaídas, é possível ver positivamente os sucessos de suas realizações culturais humanas.

Pode-se observar, ainda, no Novo Testamento, o olhar positivo de Paulo em relação à cultura. Percebe-se que ele sabia que os valores de cada cultura eram diferentes e que alguns costumes eram relativos e outros não: “...tornei-me judeus para os judeus, a fim de ganhar os judeus... para os que estão sem lei, tornei-me como sem lei, a fim de ganhar os que não tem lei...” (I Co 9.19-23). Nessa perspectiva, ele exigiu que Timóteo se circuncidasse (At 16.3) e deixou Tito sem circuncisão (Gl 2.3). Não foi incoerência na conduta do apóstolo, mas um reconhecimento bíblico de que há níveis de valores de uma cultura para outra e mesmo dentro de uma cultura.

Por outro lado, é importante questionar a cultura onde se está inserido. Paulo nos chama a atenção em Rm 12.2 para não tomarmos a forma desse mundo, mas sermos transformados pela renovação da mente. Ou seja, temos que ter a “mente de Cristo” (Fl 2.5). Isso também é encarnação. A nossa postura profética, então, deve estar presente tanto nas questões sociais como nas questões éticas e morais. A indiferença em relação aos problemas sociais, bem como o individualismo, a ganância e o consumismo, devem ser questionados pelos cristãos e não assimilados. Nesse ponto, o diálogo cultural deve permitir a transmissão da mensagem do evangelho com clareza, mesmo que ela seja rejeitada pela sociedade. É o que Tim Keller fala sobre a contextualização: “contextualização não é dar às pessoas o que elas querem ouvir, mas sim dar as respostas de Deus (as quais elas podem não querer) para as perguntas que elas estão fazendo e de uma forma que elas possam compreender”.

De acordo com o exposto, podemos perceber que nenhuma cultura é necessariamente boa ou má. Nesse sentido, nenhuma se ajusta totalmente ao propósito de Deus, tendo sempre elementos desfavoráveis à compreensão e aos valores do Evangelho. Por isso, o evangelho nunca se identifica totalmente em uma cultura em particular. Por outro lado, toda cultura possui aspectos favoráveis à compreensão e aos valores do evangelho, sendo um canal de comunicação entre Deus e o ser humano.

Vistas nesta perspectiva, as diferenças culturais que, muitas vezes são obstáculos à comunicação, tornam-se uma vantagem para a compreensão da multiforme sabedoria de Deus. Como exemplo, podemos citar o chimarrão dos gaúchos como expressão de amizade e relacionamento; também, muitas músicas trazem apelos de amor, valorização da mulher e justiça social; ainda, percebemos o cuidado com a Terra em movimentos e organizações da sociedade, o qual expressa a responsabilidade dos cristãos em cuidar da criação. Enfim, são infinitas as possibilidades.

Por outro lado, embora a forma de comunicação do evangelho deva ser flexibilizada a fim de encontrar pontos de contato com a cultura, o conteúdo é inegociável. Ao mesmo tempo, então, que a igreja enviada como Jesus procura se identificar com a cultura, deve ter uma postura profética e confrontar o que afasta a humanidade da imagem e semelhança de Deus. Isso quer dizer que o pecado pode ser encontrado nas entrelinhas de muitas expressões culturais, as quais não estão ligadas apenas à forma (símbolos, palavras, rituais, etc), mas também ao estilo de vida.

Portanto, para ser uma igreja CHAMADA PARA FORA, a qual se importa com a relevância da sua comunicação, ela deve observar o paradigma da encarnação. E, da mesma maneira como Jesus fez (tornou-se ser humano sem deixar de ser Deus), a igreja deve procurar esvaziar-se de tudo, exceto de sua integridade pessoal para cumprir seu chamado.

Implicações para a igreja local

Existem muitas implicações da perspectiva da encarnação para a igreja local. Vamos destacar apenas algumas delas. Assim, pelo fato de Jesus viver sua realidade local e se revelar a partir dela, a primeira implicação é que a igreja precisa se entender, verdadeiramente, como uma comunidade local. Então, ela precisa se decidir pelo bairro ou região no qual deseja influenciar e pelo público que deseja alcançar, pois aí está o seu verdadeiro campo missionário. A igreja precisa se preocupar com as pessoas de sua vizinhança imediata, conhecer suas necessidades e anseios, para então servi-las de maneira adequada. Então, a comunidade de discípulos deve apresentar a Deus a realidade observada e buscar o discernimento de sua atuação. Nesse sentido, é imprescindível a percepção de que a direção e a capacitação vêm de Deus: “Mas receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês e serão minhas testemunhas” (At 1.8). Aqui fica claro que a experiência do Espírito Santo é que leva à atividade missionária.

Outra implicação prática para a igreja é a necessidade de ser feita uma “exegese cultural” onde ela está inserida. Deus conhecia perfeitamente onde estava se “encarnando”. Isso significa que a comunidade local precisa conhecer o que as pessoas têm, fazem, pensam e creem. Ela precisa dialogar com o contexto histórico, social e cultural, entende-lo e interpretá-lo. Hoje existem muitas ferramentas (extraídas principalmente das ciências sociais) que podem auxiliar nessa tarefa. Mas existem três perguntas básicas a serem feitas: Quem somos? Onde estamos? O que Deus quer fazer do que somos, onde estamos?

Assim, “Quem somos” se refere aos dons espirituais, competências e potencialidades dos participantes da igreja; envolve atividade profissional, nível de escolaridade, estrutura familiar, experiências de vida, classe social, etc. “Onde estamos” está ligada à questões geográficas, históricas e culturais da região a ser alcançada: características urbanas , índice populacional, escolaridade, renda, níveis de segurança, opções de entretenimento, predominância religiosa, etc. A terceira pergunta, “O que Deus quer fazer do que somos, onde estamos” é que nos levará a trabalhar com um projeto específico na comunidade. Devemos nos perguntar, com base em quem somos e onde estamos, quais as maiores oportunidade para a entrada do evangelho.  Entretanto, isso apenas pode ser respondido mediado pela oração, pois ouvir Deus é o que conduzirá a comunidade na dependência do Espírito Santo.

Percebe-se, então, que ser CHAMADO PARA FORA não implica em fazer o trabalho de qualquer jeito, sem planejamento e sem organização. Em geral, no Brasil, vivemos parte de nossa história fazendo tudo por intuição: para desenvolver nosso chamado somos guiados pelo “Deus me falou”, desmerecendo conhecimentos especializados. Embora a intuição no Espírito Santo seja importante em todo o processo, o uso de critérios analíticos deve ser amplamente valorizado. Então, devemos nos valer de nossos dons e de nossa capacidade de trabalho criativo para adquirir as informações necessárias, a fim de formar uma igreja relevante dentro da realidade local.

Ainda dentro da “exegese cultural”, é importante perceber a influência do pensamento pós-moderno na vida das pessoas. Embora o tema da pós-modernidade seja complexo, vale destacar algumas de suas características: moralidade relativa, relações virtuais (TV e redes sociais), família mosaico, espiritualidade pluralista, excesso de informação, avesso ao que é institucional, influência da globalização e da consciência ecológica. Assim, o desafio da igreja é viver nesse contexto de maneira que seja íntegra e relevante. O objetivo é levar as pessoas a serem discípulas de Jesus: “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações... ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei...” (Mt 28.19-20).

Infelizmente, a mente do cristão contemporâneo tem sido muitas vezes moldada pela pós-modernidade. O seu comportamento, como já temos apontado, parece ser mais influenciado pela propaganda, pelos apelos da moda e pela moral das novelas do que pela encarnação de Cristo. Nesse sentido, enquanto cria uma “cultura eclesiástica” própria, a igreja permite ser influenciada pelo mundo. Isso requer, sem dúvida, um diálogo cultural sério, onde o discernimento e a obediência a Cristo sejam critérios do processo.

Essa questão do estilo de vida nos leva, ainda, a perceber que a encarnação de Jesus molda inclusive a evangelização. Para muitos, a sua ênfase está na dimensão espiritual. Ser cristão implica apenas em “aceitar” a Cristo, confessar doutrinas e assimilar valores religiosos. A salvação é vista de forma espiritualizada e individualista. A encarnação, ao contrário, promove uma mudança na vida das pessoas, bem como na sociedade onde ela vive. O desejo deve ser o de “buscar em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça” (Mt 6.23).

Uma última implicação a ser destacada é a necessidade da igreja local se descobrir como uma comunidade missional: ter a mesma natureza do Deus que se encarnou e que envia os seus discípulos. Ela deve, assim, ser uma comunidade de discípulos de Jesus, engajados na missão de fazer novos discípulos no mundo. Ela, para isso, se empenha em romper com as barreiras culturais, a fim de tornar o evangelho ouvido, compreendido e acolhido.

Dessa forma, uma igreja missional se caracteriza por ser “missionária pela sua própria natureza”, a qual busca, em toda sua estrutura, viver o seu chamado e o seu envio. Nesse sentido, o culto deve ser voltado para os de fora (com formatos e temas relevantes para as questões locais), dando oportunidade a todos os que não conhecem a Cristo de se encontrar com ele: podemos dizer que o culto não é apenas um momento para adorar a Deus (no sentido de ser um ambiente para crentes expressarem o seu louvor), mas uma oportunidade de Deus ser adorado por todos os povos.

A membresia, também, adquire sentido encarnacional e missional: os membros não são clientes de um clube de serviços, mas discípulos de Cristo em missão no mundo. Eles são estimulados à maturidade e equipados para servirem no contexto local. Assim, a visão da cultura não é simplesmente negativa ou positiva; a igreja se relaciona de forma crítica em relação a ela, enxergando tanto armadilhas como oportunidades.

Como primeira consequência da redescoberta da natureza missional da igreja, tem-se a revitalização: a comunidade de discípulos torna-se dinâmica e relevante onde vive, ao mesmo tempo em que comprometida com os valores do evangelho. A outra consequência inevitável desse processo é a plantação de novas igrejas. Uma comunidade inserida em uma perspectiva missional jamais se contentará em alcançar um grupo específico de pessoas. Ao contrário, ela se engajará em um trabalho efetivo de plantação de novas comunidades missionais, as quais nascem motivadas pela sua própria essência de ser igreja em missão no mundo.

Finalmente...

Uma conclusão óbvia de tudo que foi exposto é que a igreja precisa, como Jesus, “encarnar-se”. Essa encarnação, porém, pressupõe que ela se veja como “enviada” e, numa ação centrífuga, CHAMADA PARA FORA. Assim, uma igreja “encarnada” vive uma estrutura de ida, não de vinda. Ela dirige-se às pessoas, em vez de esperar que as pessoas venham a ela. Nesse interim, a igreja “encarnada” tem uma mensagem divina para o mundo: ela anuncia o evangelho em um contexto, embora tenha uma mensagem própria. Os meios para a comunicação decorrem da própria cultura; a igreja não é estranha no seu mundo. Por outro lado, ela interfere em seu meio e transforma a realidade vigente espelhada no reino de Deus. O evangelho, assim, também se torna “encarnado”.

Que Deus nos ajude a ser uma comunidade local CHAMADA PARA FORA que experimenta em, todas as dimensões, a realidade missional.


O desafio, portanto, está lançado!


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