terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Treinamento espiritual


Eu sempre gostei de dança. Participava de CTG e ensaiava o básico para as apresentações. Foi diferente quando participei de um grupo de dança para apresentação em churrascarias. PRECISEI TREINAR MUITO.

O treinamento é algo muito sério. Se grandes esportistas precisam treinar forte para cumprir seus objetivos, a mesma preparação é necessária para questões ligadas à espiritualidade.

Imagine se nós fossemos convocados para a seleção brasileira, qual a rotina de treinamento que seríamos submetidos?

Os atletas que se destacam geralmente treinam mais que os demais. Pelé, por exemplo, ensaiava seus dribles e chutes após os treinos. A maioria ia para casa. Ele dava duro. O resultado foi evidente. O talento de Pelé apenas o tornou “Rei do futebol” pela sua dedicação.

A vida cristã talvez seja uma das realidades que mais exigem preparo e treinamento, pois nosso alvo é a formação do caráter de Cristo em nós. Devemos entender a nossa vocação: formar pessoas maduras em Cristo Jesus.

Vejamos o que a Bíblia nos diz sobre isso:

1Timóteo 4.7-9:

 7 Mas não tenha nada a ver com as lendas pagãs e tolas. Para progredir na vida cristã, faça sempre exercícios espirituais. 8 Pois os exercícios físicos têm alguma utilidade, mas o exercício espiritual tem valor para tudo porque o seu resultado é a vida, tanto agora como no futuro. 9 Esse ensinamento é verdadeiro e deve ser crido e aceito de todo o coração.
Um dos nossos grandes equívocos em relação à vida cristã é pensar que ela brota instantaneamente.

Talvez nossa expectativa seja que a espiritualidade signifique estar na presença de Deus e experimentar o seu amor ou mesmo uma dimensão transcendente o tempo todo. Parece um choque quando percebemos que ela implica em “suar a camisa” (algo semelhante ao treinamento de atletas). Esse é o desafio para o mundo inteiro, mas é mais exigido dos discípulos, daqueles que fazem parte do time de Deus.

O texto é um eco de 1Coríntios 9.24-27. Você precisa treinar como um atleta! Quanto mais treino, mais capacitação para atingir o objetivo. Quanto mais treino, mais desejoso pela atividade.

O treinamento, portanto, surge naturalmente na vida daqueles que estão vestindo a camisa do time de Deus.

Análise do versículo 8:

"Pois os exercícios físicos têm alguma utilidade, mas o exercício espiritual tem valor para tudo porque o seu resultado é a vida, tanto agora como no futuro."

Vamos entender a comparação que Paulo faz entre treinamento físico e espiritual:

Treinamento físico: fará de você alguém mais em forma e preparado para trabalhar duro, viver bem e saudável. Algumas considerações:
  • O pensamento grego valorizava o corpo e, junto com outras virtudes, considerava o preparo físico como fundamental para a formação do ser humano.
  • A perspectiva da disciplina mudou com o tempo: no mundo grego de Aristóteles - desenvolver virtudes; na idade média - fugir de tentações; na modernidade – produtividade; na pós-modernidade - prazer e estética. 
  • Pois os exercícios físicos têm alguma utilidade (v.8a)É limitada; não completa.

Treinamento espiritual:

"mas o exercício espiritual tem valor para tudo" (v.8b).

Não significa apenas uma vida espiritual mais cheia de energia, mas o tipo de pessoa que reflete a imagem de Deus, a humanidade plena, a qual leva a ações, emoções e pensamentos adequados (de acordo com a vontade de Deus).

"porque o seu resultado é a vida, tanto agora como no futuro" (v.8c).

É isso o que Paulo quer dizer com vida: a antecipação do futuro de Deus no mundo presente.

O treinamento espiritual é como o trabalho duro de um jardineiro que transforma uma área infestada de ervas daninhas e espinhos em um adorável jardim (Gênesis). O resultado do trabalho do jardineiro, para Paulo, pode ser chamado de vida. Aqueles que se exercitam intensamente (lutam e trabalham muito – v. 10) na espiritualidade, sob a direção de Deus, fazem isso a fim de antecipar os novos céus e nova terra prometida por Ele. É a vida tanto agora como no futuro. Portanto, o exercício espiritual tem valor para nossa vida.

John Stott disse certa vez: “Para ter estabilidade em minha vida, leio a Bíblia e oro todos os dias, vou à igreja todos os domingos e nunca falto à celebração da Ceia”. Sabemos que ler a Bíblia e orar todos os dias, ir aos cultos e participar da Ceia nunca foram, por si só, sinais confiáveis de espiritualidade, muito menos um caminho seguro para a maturidade. Muitas pessoas fazem isso por puro legalismo. Por outro lado, sabemos também que não fazer nada disso é um caminho seguro e certo para o fracasso espiritual.

Então, você está disposto a encarar o treinamento oferecido por Jesus?

Para finalizar, uma dica.

Quando você estiver no treinamento, lembre-se que o processo de aprendizado (mudança de comportamento) causa desconforto em algumas etapas. Podemos dividi-las da seguinte forma:
  • Inconscientemente-incompetente (não sei que não sei – ex. pilotar um avião);
  • Conscientemente-incompetente (sei que não sei – ex. começo a ter aulas para pilotar um avião). Esse é o momento de intenso desconforto;
  • Conscientemente-competente (sei que sei – ex. aprendo a pilotar);
  • Inconscientemente-competente (desenvolvo habilidade intuitiva, como dirigir um carro).
Eis o nosso desafio. Vale a pena encarar.


SUGESTÃO DE EXERCÍCIO ESPIRITUAL

Disciplina da solitude. Escolha um dia (ou algumas horas) essa semana para um período de isolamento intencional, como se você estivesse na “concentração” para um jogo. Estabeleça um tempo para começar e terminar. Desligue-se do celular, computador, etc. Apenas com papel, caneta e uma Bíblia, separe esse momento, exclusivamente, para orar e estudar a Bíblia.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

João 15.18-27: quando o mundo te odeia?

18 Se o mundo os odeia, tenham em mente que antes me odiou. 19 Se vocês pertencessem ao mundo, ele os amaria como se fossem dele. Todavia, vocês não são do mundo, mas eu os escolhi, tirando-os do mundo; por isso o mundo os odeia. 20 Lembrem-se das palavras que eu lhes disse: Nenhum escravo é maior do que o seu senhor. Se me perseguiram, também perseguirão vocês. Se obedeceram à minha palavra, também obedecerão à de vocês. 21 Tratarão assim vocês por causa do meu nome, pois não conhecem aquele que me enviou. 22 Se eu não tivesse vindo e lhes falado, não seriam culpados de pecado. Agora, contudo, eles não têm desculpa para o seu pecado. 23 Aquele que me odeia, também odeia o meu Pai. 24 Se eu não tivesse realizado no meio deles obras que ninguém mais fez, eles não seriam culpados de pecado. Mas agora eles as viram e odiaram a mim e a meu Pai. 25 Mas isto aconteceu para se cumprir o que está escrito na Lei deles: “Odiaram-me sem razão”. 26 Quando vier o Conselheiro, que eu enviarei a vocês da parte do Pai, o Espírito da verdade que provém do Pai, ele testemunhará a meu respeito. 27 E vocês também testemunharão, pois estão comigo desde o princípio.


Jesus era paranoico?

Como de futebol, hoje em dia a maioria de nós tem certa noção de psicologia. Mesmo sem precisão técnica, falamos com naturalidade a respeito de neuroses (transtornos emocionais), fobias (medo exagerado) e paranoias (mania de perseguição). Nesse último caso, parece que alguma coisa ruim sempre vai acontecer conosco; pessoas nos odeiam e vão nos pegar.

Por causa desse tipo de generalização, podemos ter a impressão de Jesus ter desenvolvido algum tipo de paranoia. O problema é que, às vezes, o “paranoico” pode estar certo. Nas palavras de Jesus: “O mundo vai odiar vocês”; “o mundo perseguirá vocês”; “o mundo é culpado e odeia a mim e a meu pai tanto quanto odeia vocês”.

Infelizmente, para desconsolo daqueles que prefiram uma versão mais light de cristianismo, uma das marcas da igreja é a perseguição e o sofrimento. O contexto de todo o capítulo 15 é preparar os discípulos para as inevitáveis “podas” a que eles serão submetidos. Isso significa que não podemos nos surpreender com a reação do mundo.

O problema é que não percebemos “ódio” contra nós em nosso dia a dia. Onde vivemos, ser chamado de cristão pode gerar, no máximo, algum tipo de deboche. Mas isso acontece porque associamos “ódio” apenas com nossos problemas de relacionamento, quando existem emoções à flor da pele. Ou o associamos aos países perseguidos, onde questões político-partidárias e a rivalidade com o ocidente marcam o conflito contra os cristãos.

Então, não damos o devido valor ao que Jesus está dizendo. Achamos, na prática, um pouco de exagero de Jesus.

A solução para essa questão está em uma pergunta simples que geralmente nos escapa.

Quem era o mundo, cheio de ódio, do qual Jesus estava falando?

Era o mundo pagão, da cultura grega e romana; o mundo de César?

Não!

O mundo referido por Jesus era o mundo onde ele havia nascido e vivido, o mundo da Galiléia e Jerusalém, de galileus e judeus. Era o mundo dos filhos de Abrãao, pessoas que estudavam e conheciam a Lei de Moisés. Era o mundo que pensava a cerca de si mesmo como o povo de Deus. Esse era o mundo que olhava para Jesus e via os seus feitos; ouvia o que ele dizia e respondia: não, obrigado! Esse era o mundo que viu o cego ser curado e permaneceu cego (João 9).

Então, quem estava sendo paranoico? Era Jesus? Ou era o “mundo” que viu o príncipe da paz como ameaça, o Senhor do Amor como alguém para odiar?

Com certeza, os grandes conflitos de Jesus eram com os religiosos de seu povo, afinal, ele veio para as “ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 10.6; 15.24). A imagem da “videira verdadeira” (v.15.1) contrasta de forma dramática com a videira que produz frutos de má qualidade (Isaías 5). 

Eis, portanto, a raiz do problema: não compreendemos o chamado de Jesus.

Uma nova realidade...

Mas, Jesus revela uma nova realidade através de seu exemplo.  Assim como ele nos desafia a amar como ele amou (João 15.12), ele nos avisa que seremos odiados como ele foi (João 15.20). 

A questão não é ser odiado simplesmente, como um fim em si mesmo. Isso traz arrogância e verdadeira paranoia. Pedro, mais tarde, nos ensina que o sofrimento deve vir por fazermos o bem e não o mal (1Pedro 4.15). O ódio a Jesus veio porque ele confrontou toda uma visão de mundo, o qual, sem dúvida, iria gerar mudança em como todos enfrentariam a dura realidade de suas vidas.

Na mensagem de Jesus, o reino de Deus apontava para amar os inimigos e não para dominá-los; para caminhar a segunda milha e não buscar os seus próprios interesses; para dar a outra face e estabelecer a nova era do perdão e não buscar a vingança impulsiva; para conquistar pela subversão e não pela coerção. E mais, Jesus ensinava que o Messias iria conquistar seu objetivo através de sua morte e ressurreição e estabelecer o seu reino de amor pela graça e não pela lei. Isso era demais para eles. 

Uma das grandes questões propostas por Jesus aqui, portanto, é a redefinição da cosmovisão dos discípulos. Em outras palavras, Jesus está revolucionando a forma através do qual os seus seguidores devem enxergar o mundo.

O sistema religioso onde eles foram criados e formatados estava equivocado. As Escrituras e as promessas de Deus foram deturpadas. “Creiam na Boa Notícia”, anunciava Jesus. “O reino de Deus chegou! Arrependam-se; abandonem o sistema antigo e vivam a nova realidade que será estabelecida em e através de mim.” (cf. Marcos 1.15).

Isso nos leva a mais um detalhe importante no texto que geralmente nos escapa.

“Vocês não são desse mundo!” (v.19)

Infelizmente, a tradução desse texto na maioria das versões da Bíblia nos induz a pensar equivocadamente. No grego, a expressão ek tou kosmou toutou significa “vem desse mundo” e não “é desse mundo”. O reino de Jesus, então, não veio desse mundo, ou seja, não se origina no contexto da cosmovisão e da ordem do mundo. E, por extensão da missão, se refere a todo lugar da terra onde os discípulos anunciarão que o Deus criador se fez rei em Jesus e é o legítimo rei do mundo (Atos 1.8).

Isso nos leva a perceber que não existe uma guerra entre pessoas “espirituais” e pessoas “mundanas”. O mundo não é um inimigo, mas um contexto que necessita ser redimido em Jesus. Esse tipo de pensamento é alimentado pela ideia de que habitamos em um mundo mal, cujo destino será a destruição, enquanto alguns vitoriosos serão levados para outro lugar, no céu. Há muito a falar sobre isso, mas é importante lembrar que a Nova Jerusalém desce do céu e se estabelece na terra (Ap 21.1-2). O futuro do mundo, portanto, é a nova criação conquistada em e através de Jesus. Os que estiverem em Cristo, serão surpreendidos pela esperança da ressurreição. 

Isso já é uma grande mudança de cosmovisão...

A orientação para os discípulos, então, não é para eles se manterem afastados do mundo como um grupo privilegiado de salvos. Como a oração de Jesus diz, os discípulos não devem ser retirados do mundo, mas serem livres do mal (Jo 17.15). Portanto, como o reino do próprio Jesus (João 18.36),os discípulos são para o mundo, enviados para dentro dele, como Jesus foi, a fim de serem testemunhas do amor de Deus e trazer a sua vitória.

Algumas questões práticas a considerar

Será que você se deu conta da proposta revolucionária de Jesus? Será que compreendeu a cosmovisão bíblica? Será que está disposto a viver a partir da cosmovisão revelada em e através de Jesus?

Com tem sido sua postura no dia a dia? Você tem anunciado a chegada do reino de Deus em e através de Jesus? Um reino de paz, alegria e justiça no Espírito Santo? Um anúncio que convoca todos os homens e mulheres do mundo a se arrependerem: abandonar sua cosmovisão e seu estilo de vida para adentrar no mundo do único e verdadeiro Deus?

E na sua família? Você tem criado um contexto onde a realidade de Jesus se faz presente, mesmo diante de injustiças contra você ou de algum membro da família? Em vez de cultivar a ofensa, você tem acreditado no perdão e na restauração? Lembre-se que a família de Jesus também se opunha a ele (Mc 3.22).

Perceba que a família é apenas uma realidade. Quando se é fiel nas pequenas coisas, também se é nas maiores. Depois, é a realidade do seu trabalho que começa a ser afetada. Enfim, a sociedade e o mundo. O ódio virá, com certeza, em todas essas esferas. Deboches e menosprezos talvez sejam as perseguições mais suaves.

Em cada situação de tensão e dificuldade que você passar, no entanto, coloque-se dentro do mundo de Deus em Jesus. Aponte para sua realidade, através de uma reação adequada. À semelhança dos salmos, exponha as indignações diante do justo Juiz.

E, atente para o mais importante: essa obra é realizada pelo próprio Deus. Não há mérito humano. A vitória é e sempre será de Jesus, implementada no poder do Espírito. Ele é o “auxiliador”, através de quem os discípulos são consolados, capacitados e orientados (v.26).


Pr. Vinicius

Leitura recomendada: NT Wright, NT for everyone

Jo 15.9-17: amar como Jesus amou


9 Como o Pai me amou, assim eu amei vocês; permaneçam no meu amor. 10 Se vocês guardarem os meus mandamentos, permanecerão no meu amor, assim como tenho guardado os mandamentos de meu Pai e em seu amor permaneço. 11 Tenho dito essas coisas para vocês, a fim de que a minha alegria esteja em vocês e a alegria de vocês seja completa. 12 O meu mandamento é este: Amem-se uns aos outros da mesma maneira que eu amei vocês. 13 Ninguém tem maior amor do que aquele que entrega a sua vida pelos seus amigos. 14 Vocês são meus amigos se vocês fazem o que eu falo a vocês. 15 Já não chamo vocês de servos, porque o servo não sabe o que o seu senhor faz. Em vez disso, eu tenho chamado vocês de amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai eu tornei conhecido a vocês. 16 Vocês não me escolheram, mas eu escolhi vocês para irem e darem fruto, fruto que permaneça. Então, o Pai dará a vocês qualquer coisa que pedirem em meu nome. 17 Este é o meu mandamento para vocês: Amem-se uns aos outros.

O contexto do capítulo 15 do Evangelho de João fala de Jesus como a “videira verdadeira” (o verdadeiro Israel, onde todos os propósitos de Deus são cumpridos) e da “poda” (as inevitáveis situações de sofrimento e dificuldades) como instrumento de Deus para levar os ramos-discípulos a produzirem frutos de qualidade (a nova natureza, a qual promove e antecipa a nova criação de Deus em e através de Jesus). 

O amor, nessa situação, parece ser a principal característica da vida frutífera. E ele vem a partir de um mandamento: “amem uns aos outros!” (v. 12 e 17). Nos versículos 9, 10 e 16, ainda, a orientação é “permanecer no amor”. Isso significa que devemos viver no contexto do amor. O amor é o grande eixo ao redor do tudo o mais acontece.

A tradição da igreja conta que quando João estava bem velhinho, morando em Éfeso, já cego e sem forças para andar, repetia sem cessar à igreja que lá se reunia: “Filhinhos, amem uns aos outros!”. Seus amigos, então, lhe diziam: “Paizinho, nós já sabemos tudo isso, por que você ainda insiste em repetir esse ensinamento”. A resposta de João era clara: “Porque foi esse o maior ensinamento de nosso Senhor; façam isso e viverão!” (Cf. R. Foster, Rios de Água Viva).

E o que significa esse “amor”?

A resposta a essa pergunta começa com o surpreendente v. 12: ”Amem-se uns aos outros da mesma maneira que eu amei vocês”. Prestem atenção à referência: devemos amar da mesma maneira que Jesus amou. Esse é o grande detalhe. A perspectiva de Deus para o amor supera as relações horizontais. O mandamento da Lei diz: “ame ao próximo como a ti mesmo”. Outra forma de dizer isso é: “pense como você gostaria de ser tratado; então vá lá e faça o mesmo com a outra pessoa” (Cf. Mateus 7.12). Perceba que você é a referência. Então, o amor vai se basear naquilo que você faz ou sente.

Jesus, por outro lado, revoluciona todos os conceitos quando extrapola as relações horizontais (eu + outro) e adiciona a relação vertical (nós + Deus). A referência do amor não é limitada aos bons sentimentos por alguém ou a atos de bondade (embora, com certeza, não seja menos do que isso). A referência é a vida de Jesus e o seu caminho obediente até a cruz, onde se entrega para trazer a verdadeira vida ao mundo (v.13 e 16; cf. João 16.16 e 10.10).

A “ordem” de Jesus, então, é para uma mudança de cosmovisão (como enxergamos o mundo), a partir da qual redirecionamos nossa vida. Fomos construídos socialmente para imaginar o amor apenas como sentimentos e atos de bondade. Jesus nos desafia a amar como ele próprio nos amou. Nesse sentido, a condição necessária para amar na perspectiva de Deus é a lealdade, o compromisso, a obediência (v.10 e 14). 

Mas não é contraditório relacionar “amor” com “obediência”?

A Bíblia nos conta que, no Jardim do Éden, nossos primeiros pais foram confrontados com a morte caso desobedecessem as orientações de Deus (Gênesis 3). Bem, eles desobedeceram. A que tipo de “morte” eles foram submetidos? A resposta é: ao “exílio”, à ausência (não presença) de Deus e de seus propósitos. Essa realidade marcou toda a vida da descendência de Abraão, impedindo o cumprimento dos propósitos de Deus para o mundo. Apenas pela obediência de Jesus, a “videira verdadeira”, tudo se cumpriu (Cf. Romanos 5.19; Filipenses 2.8 e Hebreus 5.8-9). Obediência, assim, leva a humanidade a expressar a imagem e semelhança de Deus e a desfrutar da vida plena junto de toda a criação (Romanos 8). Já a desobediência leva a humanidade e a criação ao “exilio”, à manifestação de um mundo longe de Deus e de seus propósitos.

Outra perspectiva que ajuda a compreender a orientação de Jesus é perceber o mandamento como uma orientação vital, relacionado a uma prática disciplinada para gerar vida. Assim como a ira de Deus não é a nossa ira (no sentido da revelação da Bíblia, “ira de Deus” significa a interferência soberana de Deus em relação ao mal e não uma explosão impulsiva carregada de rancor), a “ordem” de Deus não traz a ideia da obediência como um fim em si mesma. É mais a expressão de zelo amoroso, o qual conduz àquele que obedece à vida proposta por Deus.

Por isso, creio, Jesus relaciona a questão do amar com o obedecer (v.14). A obediência de Jesus marca o seu compromisso com a vocação e os propósitos de Deus. Obedecer, aqui, significa ser fiel, crer, confiar, entregar a vida para que a redenção de toda a criação aconteça, segundo a vontade amorosa do Criador. Quando Jesus ama, ele não pensa em si, mas em tudo o que Deus sonhou para a humanidade e para a criação. Todos os seus pensamentos, atos e sentimentos são trabalhados para esse fim. Jesus deseja para nós o melhor que o amor pode dar: a verdadeira humanidade dentro de uma criação redimida em amor. Amar, então, é obedecer e obedecer é amar. Não há contradição aqui.


A questão, perceba, não é simplesmente obedecer por obedecer, para fazer qualquer coisa. A questão não é obedecer a qualquer um ou a qualquer ordem. A questão é obedecer a Jesus, seguindo suas orientações pelo compromisso que se tem com ele; é confiar que sua orientação nos leva à vida. Por isso o amor não pode ser confundido com sentimentos ou atos de bondade: ele está mais relacionado à aliança de Deus conosco, ao seu compromisso de nos dar vida. O convite (ou a ordem) de Jesus, então, é para que tenhamos o mesmo procedimento e nos comprometermos com o projeto maior de transformar o mundo através do amor de Cristo. Quando isso acontece, produzimos frutos perenes, cuja evidência é a resposta positiva de nossas orações (v.16), pois vivemos em sintonia com Deus e seus propósitos.

Como posso fazer isso na prática?

Ampliar nosso conceito e nossa prática de amor não vai ser fácil. Mas é possível. O Espírito Santo nos auxiliará em toda a jornada (João 15.26). Comece, então, trabalhando com sua motivação. Procure agir com o intuito de encontrar soluções para os problemas a sua volta e não para obter qualquer tipo de benefício. Muitas vezes, apenas amamos se recebemos amor em troca. 

Faça diferente: pela fé, ame como Jesus, a fim de trazer o mundo de Deus para a sua realidade. Então, em vez de brigar impulsivamente com o seu filho ou o seu cônjuge, busque através de palavras, ações e orações criar um ambiente de paz para solucionar os problemas. Em vez de devolver a ofensa a um colega de trabalho ou a um amigo, entregue-a para Jesus em oração e resolva a situação com maturidade. Se você está prestes a infringir uma lei para obter mais lucro em um negócio, busque em Deus uma saída honesta e perceba que o reino de Deus é estabelecido a partir de pequenos gestos (Cf. Mateus 13.31-33). 

Portanto, através do amor inspirado e ofertado por Jesus, traga perdão onde muitos desejariam vingança; traga paz em ambientes marcados pela raiva; seja corajoso em Deus em situações que muitos pensam em fugir; busque a justiça em relação a causas onde muitos já perderam a força de lutar. Em todas as coisas seja guiado pela serenidade e pelo bom senso. Em todo momento, ore e entregue a situação ao Justo Juiz (aprenda a fazer isso orando os Salmos). Creia nas orientações de Jesus como fonte de alegria e de vida (v.11).

Uma palavra final. No coração disso tudo está a humildade em reconhecer quem é o responsável por tudo: “vocês não me escolheram; eu escolhi vocês” (v.16). Por isso que seguir a Jesus não é uma “religião”. É um relacionamento pessoal de amor e lealdade com aquele que tem nos amado mais do que nós podemos imaginar. E o teste desse amor e lealdade permanece o simples, profundo, perigoso e difícil mandamento: amar um ao outro.


Pr. Vinicius

Leitura recomendada: N.T. Wright, NT for everyone.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

João 15.1-8: a poda que frutifica

"Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que, estando em mim, não dá fruto, ele corta; e todo que dá fruto ele poda, para que dê mais fruto ainda. Vocês já estão limpos, pela palavra que lhes tenho falado. Permaneçam em mim, e eu permanecerei em vocês. Nenhum ramo pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Vocês também não podem dar fruto, se não permanecerem em mim. Eu sou a videira; vocês são os ramos. Se alguém permanecer em mim e eu nele, esse dará muito fruto; pois sem mim vocês não podem fazer coisa alguma. Se alguém não permanecer em mim, será como o ramo que é jogado fora e seca. Tais ramos são apanhados, lançados ao fogo e queimados. Se vocês permanecerem em mim, e as minhas palavras permanecerem em vocês, pedirão o que quiserem, e lhes será concedido. Meu Pai é glorificado pelo fato de vocês darem muito fruto; e assim serão meus discípulos." (João 15.1-8)

Quando leio João 15 me vem à lembrança minha lida com a agricultura. Posso dizer, com certeza, que a poda de videiras é uma das práticas culturais agrícolas mais desafiadoras. Primeiramente, temos de conhecer os ramos potencialmente frutíferos e diferenciá-los dos vegetativos e dos ditos ramos “ladrões” (apenas sugam a energia da videira, mas jamais darão fruto). O próximo passo é fazer a poda corretamente, direcionando o crescimento do ramo para a luz, a fim de produzir os melhores frutos. Se a poda não é feita (ou é mal feita) os ramos crescem enrolados e sem direção, perdendo a energia da luz. Nesse caso, expressam frutos de má qualidade.

Creio que a figura usada por Jesus no Evangelho de João leva em consideração esse processo. Os frutos são o sentido da videira, o seu propósito do ponto de vista do agricultor. E, talvez, o grande propósito de Jesus aqui seja direcionar a formação de seres humanos ligados a ele, os quais devem expressar sua vida e sua natureza. Entretanto, essa necessária frutificação apenas acontece através da PODA (v.2 - a palavra utilizada por João também significa “limpa”, “purifica”).

Mas o que significa essa PODA?

Parece, pelo contexto da narrativa de João, que a fala de Jesus aponta para o seu sofrimento, o qual também será experimentado pelos discípulos, a fim de eles darem mais frutos. O seu ensino, assim, aponta para a cruz de cada dia, à semelhança do próprio Jesus que caminha para a “grande cruz” (cf. 16.1-4; 33). 

Nesse sentido, é possível falar de pessoas consoladas, orientadas e capacitadas pelo Espírito em meio às aflições do mundo (tema constante do contexto maior – capítulos 14 a 17), cujos frutos revelam Deus no mundo (cf. v.16; João 17.17-21 e Gálatas 5.16-26).

Viver o reino de Deus, então, exigirá rupturas, confrontos e o abandono de ambições pessoais. Algo que, parece, os discípulos já tem feito (v.3). Mas ainda é só o começo. Eles devem estar preparados para mais poda, como a perseguição (v.18s). A frutificação, portanto, é um processo tão dolorido quanto belo. Não pode ser romantizado. 

Mas, na nossa vida, não é apenas através de perseguições, comuns pela proposta revolucionária do evangelho, que o sofrimento acontece. Ele pode vir, também, a partir de doenças, depressão, solidão, privações, graves problemas morais, pressão familiar, tragédia, acidente ou morte. Ninguém pode acusar a Bíblia de apresentar um quadro otimista sobre como seria a vida daqueles que seguem a Jesus. Da mesma maneira, ninguém busca ou flerta com o sofrimento, como se ele fosse um benefício em si mesmo. E há sofrimento cuja dor é incalculável. Mas, quando ele vier, sabemos que "somos mais do que vencedores por meio daquele que nos amou" (Romanos 8.37).

Acho que esse é o desafio proposto por Jesus em sua figura da poda na videira: devemos estar prontos para enfrentar as dificuldades de cada dia, ligados a Cristo, a fim de transformar o mal em bem e adquirir a vida de Jesus.

Como isso é possível?

Observe que a videira e os ramos têm a mesma seiva fluindo. O interior é o mesmo. Existe unidade. O ramo frutífero é expressão da seiva fértil da videira. Talvez por isso, essa passagem seja tão utilizada pelos antigos cristãos para descrever a união mística com Cristo: ser um com Ele e estabelecer a intimidade mais profunda com o Amado. É essa união que nos possibilita suportar a poda constante e transformar o nosso caráter (v.5). Assim, dentro dessa magnífica imagem, podemos dizer que duas características da espiritualidade cristã se destacam: a intimidade com Deus e o sofrimento.

Jesus, então, convida você e eu para uma profunda unidade (v.4), cuja direção e propósito é a nova natureza da nova criação de Deus em e através de Jesus. Perceba que Jesus, aqui, está estabelecendo as bases de um novo mundo, o qual deve ser incorporado pelos seus discípulos, no poder do Espírito. E o caminho inevitável, através do qual isso irá acontecer, é o sofrimento. Em outras palavras, é a cruz de cada dia; a luta para se incorporar a um reino de amor, paz e justiça estabelecido em e através do Cristo Jesus, em contraposição ao mundo governado por falsos deuses (poder, prazer, dinheiro, etc).

Por que tem de ser tão difícil?

O ser humano foi mal direcionado. Como diz o ditado: "pau que nasce torto não dá mais para endireitar". Entretanto, em Cristo e no poder do Espírito, isso é possível. Há séculos os falsos deuses têm determinado nossa cosmovisão (como enxergamos o mundo) e influenciado nosso comportamento. Na verdade, uma das marcas da humanidade sem Deus é sua idolatria. Ela é, portanto, direcionada para propósitos diferentes dos de Deus - somos formatados à imagem daquilo que adoramos. Usando a analogia da poda, é como se fossemos conduzidos para longe da luz. A consequência são os frutos de má qualidade (cf. Gálatas 5.19-21). Existe, então, uma verdadeira luta do Espírito contra a "carne" (natureza humana sem Deus) - cf. Gálatas 5.17. Pelo que parece, o sofrimento é um dos principais meios para "podar" a velha natureza e formar a natureza de Cristo (cf. Gálatas 5.24; Colossenses 3.1-17; Romanos 8; 1Pedro 4).

Um detalhe fundamental...

É importante observar em João 15 o fato da videira ser um símbolo típico de Israel. Profetas como Isaías (cf. capítulo 5) dizem que a videira de Israel tem produzido uvas de má qualidade. Agora Jesus está dizendo que ele é a “videira verdadeira” (v.1). Em outras palavras, Jesus parece dizer que ele é o verdadeiro Israel. Ele é aquele onde os propósitos de Deus são alcançados. O que Israel (e nós) não conseguiu cumprir, Jesus cumpre. Nele é possível produzir abundante frutificação, vida completa. Nele é possível ser luz para as nações, um povo renovado à imagem de Deus, que expressa o reino de Deus que já veio em Jesus, foi conquistado na cruz e na ressurreição do Messias, e cuja esperança de um estabelecimento definitivo nessa terra não escapa de nosso coração.

O convite de Jesus, portanto, é para os seus seguidores, membros do verdadeiro povo de Deus, permanecerem Nele, não apenas como indivíduos (conceito iluminista), mas como uma grande árvore frutífera, a igreja, cujo estilo de vida antecipa e aponta para o reino de Deus. Isso significa que nenhum galho se desenvolve sozinho, longe da videira e de outros ramos. Estes tendem a secar e a morrer. Seu destino é o fogo (v.6).  Por outro lado, os ramos que permanecem na videira e se submetem à tesoura do “podador”, vivem e frutificam. Parece ser essa a perspectiva de Jesus para os seus seguidores, ou seja, para todos nós.

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Podemos dizer, finalmente, que o Deus criador, o qual fez uma aliança com a humanidade para redimir o mundo desde Abraão (Gn 12.1-3), se tornou o Deus Salvador em e através de Jesus. Ligados a ele, cooperamos para que sua vontade seja feita na terra como é feita no céu e antecipamos a vinda de seu reino glorioso. Nosso caminho, portanto, é adorá-lo e servi-lo de todo o coração, junto com uma comunidade de pessoas em formação, ramos ainda em processo de poda e redirecionamento, cujas vidas foram conquistadas na cruz. A igreja, então, é a comunidade que conhece, ama e celebra Jesus como Senhor e Salvador. E, quando nossa vida entra em harmonia com Jesus, a partir da cruz e das “podas” de cada dia, creio, nossas orações serão respondidas (v.7), pois oraremos e viveremos segundo a vontade de Deus. 

Pr. Vinicius

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