Eclesiologia Missional
IGREJA: CHAMADOS PARA FORA
3. Olhando a partir do
centro...
Novamente Jesus disse:
“Paz seja com vocês! Assim como o Pai me enviou, eu os envio” (Jo 20.21).
Como temos visto nos estudos anteriores, a igreja, CHAMADA
PARA FORA, possui uma natureza que é, eminentemente, missional. Ela, por isso,
volta-se para o mundo e dialoga com ele. Busca ser compreendida e revelar Deus
às nações, bem como ser bênção na realidade onde está inserida. Percebemos,
ainda, que essa perspectiva está revelada desde a história de Israel, a qual
tem seu início no chamado de Abraão. Não há dúvida, Deus é missionário e deseja
que seu povo também o seja. Estar em missão, enfim, é ser igreja.
É interessante observar, porém, que a tarefa missionária tem
em Jesus o modelo por excelência: “Assim
como o Pai me enviou, eu os envio”. O anúncio do Reino de Deus se deu
através da encarnação. Jesus assume
a história do seu povo tornando-se “Deus conosco” e habitando “entre nós, cheio
de graça e verdade” (Jo 1.14). Esse texto nos remete diretamente a necessidade
de contextualização. A encarnação, aqui, revela Deus de forma compreensível
entre as pessoas de uma determinada cultura – no caso, o povo de Israel. Assim,
na pessoa de Jesus, Deus se fez presente entre nós e viveu seu contexto
histórico, social, econômico, político e religioso. Jesus, portanto, conhecia a
realidade onde estava inserido e agiu integrando essa realidade com a vontade
de Deus. O Deus-homem, assim, assumiu a condição humana e cultural em sua
totalidade. Para o povo de Deus, o qual é enviado como Jesus, isso significa
“nascer de novo” em cada contexto específico.
E como a igreja pode nascer de novo em sua localidade? A
exemplo de Jesus que se fez aprendiz durante trinta anos no povo judeu antes de
se revelar como Filho de Deus, a igreja deve compreender os usos, costumes,
valores e cosmovisão da comunidade onde está inserida. Apenas dessa forma
poderá comunicar a mensagem do evangelho com fidelidade e clareza. Ela deve,
portanto, aprender a pensar como as pessoas não-crentes pensam e a viver como
elas vivem, evitando uma grande disparidade entre estilos de vida. Ser enviado
como Jesus implica em valorização da “cultura do outro” e em aprender a colocar
a “cultura da igreja” em segundo plano, visto ser ela confortável apenas para
quem já é crente. Na prática, significa que a igreja precisa rever sua cultura
eclesiástica: identificar o que é expressão cultural oriunda de sua tradição
histórica e buscar uma relevância contemporânea e local. Isso não significa
abandonar o conteúdo e os valores do evangelho, mas apenas ajustar a forma de
expressá-lo. O desafio é estar no mundo sem ser do mundo (Jo 17.15-18).
Nessa perspectiva, é possível encontrar na Bíblia vários
exemplos onde Jesus se comunica a partir de sua realidade: Mt 4.19 – pesca para
pescadores; Mc 4.1-20 – semeador para agricultores; Jo 15.1-6 – videira para
produtores de vinho; Jo 10.1-18 – ovelhas para pastores; Mt 22.15-22 – moeda
para homens que entendiam de tributos. O mesmo pode ser observado em relação
aos apóstolos: At 10.9-16 – Pedro e o centurião Cornélio; At 17.15-31 –
discurso de Paulo para os religiosos em Atenas; Gl 2.7-8 – Pedro era apóstolo
da circuncisão e Paulo da incircuncisão; I Co 9.19-22 – Paulo se faz de tudo
para com todos, a fim de salvar alguns.
Entretanto, apesar dos exemplos bíblicos, Jesus não deixou
simples receitas, fórmulas ou métodos para seus seguidores. Na verdade, ele é o
modelo de identificação total que precisamos observar. Ele nos mostra como
devemos traduzir a mensagem do evangelho em relacionamentos amorosos e ações
sociais que refletem a atitude de serviço e solidariedade.
A igreja CHAMADA PARA FORA, assim, enfrenta o desafio de
comunicar o evangelho dentro do seu contexto. No caso da realidade brasileira,
significa lidar com a violência generalizada, o uso de drogas, a má
distribuição de renda, a impunidade, a sensualidade, o individualismo e a
superficialidade espiritual. A pergunta que surge é: como podemos encontrar as
pessoas em situações concretas, compreender suas questões e, ao mesmo tempo,
desenvolver um estilo de vida “encarnacional”?
Diálogo com a cultura
Dialogar com a cultura sempre foi e sempre será um desafio
do povo de Deus. Isso ocorre desde os tempos de Israel, quando ele deveria
viver sua fé em meio às nações pagãs de modo a glorificar a Deus. Nesse
sentido, embora houvesse a exigência da adoração exclusiva a Deus revelado por
Moisés, o povo judeu também foi influenciado pelas nações vizinhas. Esse é o
caso, por exemplo, de muitas composições de salmos e provérbios (Sl 11, 29 e 45
são de origem cananéia e adaptados para o uso israelita; Pv 22.17-23.11 é
baseado nas Máximas de Amenemope; entre outros). As semelhanças com a
literatura considerada pagã, então, podem nos mostrar que os louvores, orações
e ditos de sabedoria tomavam uma forma facilmente compreendida pelos povos
vizinhos de Israel e direcionava o louvor universal a Deus. Isso aponta para o
fato de que o diálogo cultural sempre foi possível.
Outro olhar para o Antigo Testamento também mostra essa
possibilidade. Embora Gênesis 3 registre a queda da humanidade e Gênesis 4 o
assassinato de Abel pelas mãos de Caim, são os descendentes deste que são
apresentados como inovadores da cultura, erguendo cidades, criando animais para
seu sustento, produzindo instrumentos musicais e ferramentas de metal (Gn
4.17-22). Assim, apesar da condição de criaturas decaídas, é possível ver
positivamente os sucessos de suas realizações culturais humanas.
Pode-se observar, ainda, no Novo Testamento, o olhar
positivo de Paulo em relação à cultura. Percebe-se que ele sabia que os valores
de cada cultura eram diferentes e que alguns costumes eram relativos e outros
não: “...tornei-me judeus para os judeus, a fim de ganhar os judeus... para os
que estão sem lei, tornei-me como sem lei, a fim de ganhar os que não tem
lei...” (I Co 9.19-23). Nessa perspectiva, ele exigiu que Timóteo se
circuncidasse (At 16.3) e deixou Tito sem circuncisão (Gl 2.3). Não foi
incoerência na conduta do apóstolo, mas um reconhecimento bíblico de que há
níveis de valores de uma cultura para outra e mesmo dentro de uma cultura.
Por outro lado, é importante questionar a cultura onde se
está inserido. Paulo nos chama a atenção em Rm 12.2 para não tomarmos a forma
desse mundo, mas sermos transformados pela renovação da mente. Ou seja, temos
que ter a “mente de Cristo” (Fl 2.5). Isso também é encarnação. A nossa postura profética, então, deve estar presente
tanto nas questões sociais como nas questões éticas e morais. A indiferença em
relação aos problemas sociais, bem como o individualismo, a ganância e o
consumismo, devem ser questionados pelos cristãos e não assimilados. Nesse
ponto, o diálogo cultural deve permitir a transmissão da mensagem do evangelho
com clareza, mesmo que ela seja rejeitada pela sociedade. É o que Tim Keller
fala sobre a contextualização: “contextualização não é dar às pessoas o que
elas querem ouvir, mas sim dar as respostas de Deus (as quais elas podem não
querer) para as perguntas que elas estão fazendo e de uma forma que elas possam
compreender”.
De acordo com o exposto, podemos perceber que nenhuma
cultura é necessariamente boa ou má. Nesse sentido, nenhuma se ajusta
totalmente ao propósito de Deus, tendo sempre elementos desfavoráveis à
compreensão e aos valores do Evangelho. Por isso, o evangelho nunca se
identifica totalmente em uma cultura em particular. Por outro lado, toda
cultura possui aspectos favoráveis à compreensão e aos valores do evangelho,
sendo um canal de comunicação entre Deus e o ser humano.
Vistas nesta perspectiva, as diferenças culturais que,
muitas vezes são obstáculos à comunicação, tornam-se uma vantagem para a
compreensão da multiforme sabedoria de Deus. Como exemplo, podemos citar o
chimarrão dos gaúchos como expressão de amizade e relacionamento; também,
muitas músicas trazem apelos de amor, valorização da mulher e justiça social;
ainda, percebemos o cuidado com a Terra em movimentos e organizações da
sociedade, o qual expressa a responsabilidade dos cristãos em cuidar da
criação. Enfim, são infinitas as possibilidades.
Por outro lado, embora a forma de comunicação do evangelho
deva ser flexibilizada a fim de encontrar pontos de contato com a cultura, o
conteúdo é inegociável. Ao mesmo tempo, então, que a igreja enviada como Jesus
procura se identificar com a cultura, deve ter uma postura profética e
confrontar o que afasta a humanidade da imagem e semelhança de Deus. Isso quer
dizer que o pecado pode ser encontrado nas entrelinhas de muitas expressões
culturais, as quais não estão ligadas apenas à forma (símbolos, palavras, rituais,
etc), mas também ao estilo de vida.
Portanto, para ser uma igreja CHAMADA PARA FORA, a qual se
importa com a relevância da sua comunicação, ela deve observar o paradigma da
encarnação. E, da mesma maneira como Jesus fez (tornou-se ser humano sem deixar
de ser Deus), a igreja deve procurar esvaziar-se de tudo, exceto de sua
integridade pessoal para cumprir seu chamado.
Implicações para a igreja
local
Existem muitas implicações da perspectiva da encarnação
para a igreja local. Vamos destacar apenas algumas delas. Assim, pelo fato de
Jesus viver sua realidade local e se revelar a partir dela, a primeira
implicação é que a igreja precisa se entender, verdadeiramente, como uma
comunidade local. Então, ela precisa se decidir pelo bairro ou região no qual
deseja influenciar e pelo público que deseja alcançar, pois aí está o seu
verdadeiro campo missionário. A igreja precisa se preocupar com as pessoas de
sua vizinhança imediata, conhecer suas necessidades e anseios, para então
servi-las de maneira adequada. Então, a comunidade de discípulos deve
apresentar a Deus a realidade observada e buscar o discernimento de sua
atuação. Nesse sentido, é imprescindível a percepção de que a direção e a
capacitação vêm de Deus: “Mas receberão poder quando o Espírito Santo descer
sobre vocês e serão minhas testemunhas” (At 1.8). Aqui fica claro que a
experiência do Espírito Santo é que leva à atividade missionária.
Outra implicação prática para a igreja é a necessidade de
ser feita uma “exegese cultural” onde ela está inserida. Deus conhecia
perfeitamente onde estava se “encarnando”. Isso significa que a comunidade
local precisa conhecer o que as pessoas têm, fazem, pensam e creem. Ela precisa
dialogar com o contexto histórico, social e cultural, entende-lo e
interpretá-lo. Hoje existem muitas ferramentas (extraídas principalmente das
ciências sociais) que podem auxiliar nessa tarefa. Mas existem três perguntas
básicas a serem feitas: Quem somos? Onde estamos? O que Deus quer fazer do que
somos, onde estamos?
Assim, “Quem somos” se refere aos dons espirituais,
competências e potencialidades dos participantes da igreja; envolve atividade
profissional, nível de escolaridade, estrutura familiar, experiências de vida,
classe social, etc. “Onde estamos” está ligada à questões geográficas,
históricas e culturais da região a ser alcançada: características urbanas ,
índice populacional, escolaridade, renda, níveis de segurança, opções de
entretenimento, predominância religiosa, etc. A terceira pergunta, “O que Deus
quer fazer do que somos, onde estamos” é que nos levará a trabalhar com um
projeto específico na comunidade. Devemos nos perguntar, com base em quem somos
e onde estamos, quais as maiores oportunidade para a entrada do evangelho. Entretanto, isso apenas pode ser respondido mediado
pela oração, pois ouvir Deus é o que conduzirá a comunidade na dependência do
Espírito Santo.
Percebe-se, então, que ser CHAMADO PARA FORA não implica
em fazer o trabalho de qualquer jeito, sem planejamento e sem organização. Em
geral, no Brasil, vivemos parte de nossa história fazendo tudo por intuição:
para desenvolver nosso chamado somos guiados pelo “Deus me falou”, desmerecendo
conhecimentos especializados. Embora a intuição no Espírito Santo seja
importante em todo o processo, o uso de critérios analíticos deve ser
amplamente valorizado. Então, devemos nos valer de nossos dons e de nossa
capacidade de trabalho criativo para adquirir as informações necessárias, a fim
de formar uma igreja relevante dentro da realidade local.
Ainda dentro da “exegese cultural”, é importante perceber
a influência do pensamento pós-moderno na vida das pessoas. Embora o tema da
pós-modernidade seja complexo, vale destacar algumas de suas características:
moralidade relativa, relações virtuais (TV e redes sociais), família mosaico,
espiritualidade pluralista, excesso de informação, avesso ao que é
institucional, influência da globalização e da consciência ecológica. Assim, o
desafio da igreja é viver nesse contexto de maneira que seja íntegra e
relevante. O objetivo é levar as pessoas a serem discípulas de Jesus:
“Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações... ensinando-os a obedecer
a tudo o que eu lhes ordenei...” (Mt 28.19-20).
Infelizmente, a mente do cristão contemporâneo tem sido
muitas vezes moldada pela pós-modernidade. O seu comportamento, como já temos
apontado, parece ser mais influenciado pela propaganda, pelos apelos da moda e
pela moral das novelas do que pela encarnação de Cristo. Nesse sentido,
enquanto cria uma “cultura eclesiástica” própria, a igreja permite ser
influenciada pelo mundo. Isso requer, sem dúvida, um diálogo cultural sério,
onde o discernimento e a obediência a Cristo sejam critérios do processo.
Essa questão do estilo de vida nos leva, ainda, a
perceber que a encarnação de Jesus molda inclusive a evangelização. Para
muitos, a sua ênfase está na dimensão espiritual. Ser cristão implica apenas em
“aceitar” a Cristo, confessar doutrinas e assimilar valores religiosos. A
salvação é vista de forma espiritualizada e individualista. A encarnação, ao
contrário, promove uma mudança na vida das pessoas, bem como na sociedade onde
ela vive. O desejo deve ser o de “buscar em primeiro lugar o reino de Deus e
sua justiça” (Mt 6.23).
Uma última implicação a ser destacada é a necessidade da
igreja local se descobrir como uma comunidade missional: ter a mesma natureza
do Deus que se encarnou e que envia os seus discípulos. Ela deve, assim, ser
uma comunidade de discípulos de Jesus, engajados na missão de fazer novos
discípulos no mundo. Ela, para isso, se empenha em romper com as barreiras
culturais, a fim de tornar o evangelho ouvido, compreendido e acolhido.
Dessa forma, uma igreja missional se caracteriza por ser
“missionária pela sua própria natureza”, a qual busca, em toda sua estrutura,
viver o seu chamado e o seu envio. Nesse sentido, o culto deve ser voltado para
os de fora (com formatos e temas relevantes para as questões locais), dando
oportunidade a todos os que não conhecem a Cristo de se encontrar com ele:
podemos dizer que o culto não é apenas um momento para adorar a Deus (no
sentido de ser um ambiente para crentes expressarem o seu louvor), mas uma
oportunidade de Deus ser adorado por todos os povos.
A membresia, também, adquire sentido encarnacional e missional:
os membros não são clientes de um clube de serviços, mas discípulos de Cristo
em missão no mundo. Eles são estimulados à maturidade e equipados para servirem
no contexto local. Assim, a visão da cultura não é simplesmente negativa ou
positiva; a igreja se relaciona de forma crítica em relação a ela, enxergando
tanto armadilhas como oportunidades.
Como primeira consequência da redescoberta da natureza
missional da igreja, tem-se a revitalização: a comunidade de discípulos
torna-se dinâmica e relevante onde vive, ao mesmo tempo em que comprometida com
os valores do evangelho. A outra consequência inevitável desse processo é a
plantação de novas igrejas. Uma comunidade inserida em uma perspectiva
missional jamais se contentará em alcançar um grupo específico de pessoas. Ao
contrário, ela se engajará em um trabalho efetivo de plantação de novas
comunidades missionais, as quais nascem motivadas pela sua própria essência de
ser igreja em missão no mundo.
Finalmente...
Uma conclusão óbvia de tudo que foi exposto é que a
igreja precisa, como Jesus, “encarnar-se”. Essa encarnação, porém, pressupõe
que ela se veja como “enviada” e, numa ação centrífuga, CHAMADA PARA FORA.
Assim, uma igreja “encarnada” vive uma estrutura de ida, não de vinda. Ela
dirige-se às pessoas, em vez de esperar que as pessoas venham a ela. Nesse
interim, a igreja “encarnada” tem uma mensagem divina para o mundo: ela anuncia
o evangelho em um contexto, embora tenha uma mensagem própria. Os meios para a
comunicação decorrem da própria cultura; a igreja não é estranha no seu mundo.
Por outro lado, ela interfere em seu meio e transforma a realidade vigente
espelhada no reino de Deus. O evangelho, assim, também se torna “encarnado”.
Que Deus nos ajude a ser uma comunidade local CHAMADA
PARA FORA que experimenta em, todas as dimensões, a realidade missional.
O desafio, portanto, está lançado!


