Eclesiologia missional
IGREJA:
CHAMADOS PARA FORA
2. Olhando de trás para frente...
O Eterno disse a Abrão:
“Deixe sua terra, sua família e a casa de seu pai
e vá para uma terra que eu mostrarei a você. Farei de você uma grande nação e o
abençoarei. Tornarei você famoso; você será uma bênção. Abençoarei os que o
abençoarem e amaldiçoarei os que o amaldiçoarem. Todas as famílias da terra
serão abençoadas por seu intermédio.”.
Como vimos no estudo
anterior, somos igreja CHAMADA PARA FORA pela nossa própria natureza.
Percebemos essa realidade brotar do próprio significado da palavra “igreja” (ekklesia = ek + kaleo = chamado para fora).
Mas, também, observamos esse chamado exposto no Novo Testamento quando
consideramos a igreja como uma comunidade que se reúne como povo de Deus. Como
Seu povo, somos expressão de Sua natureza e de Sua missão: levar o mundo a se
reconciliar com Deus e o seu reino. Nesse sentido, somos comunidade missional
(missionária por natureza), a qual se volta intencionalmente para o mundo e
dialoga com ele de maneira contextualizada.
A intensão agora, a
partir de Abraão, é verificar a natureza missionária da igreja como eco do
chamamento divino desde os primórdios da revelação bíblica. Isso quer dizer que
a ação de Deus em direção a humanidade não inicia no Novo Testamento. Ele está,
na verdade, exposto por toda a Bíblia. O teólogo holandês J. Bavinck já
observou em Gn 1.1 (“No princípio Deus criou os céus e a terra”) a base da
Grande Comissão de Mt 28.18-20. Isso significa que já no primeiro versículo da
Bíblia percebemos a preocupação de Deus com o mundo inteiro. Infelizmente, uma
parte do mundo criado (o ser humano) se afastou do seu Criador, a ponto de
afetar toda a criação. Deus, então, estabelece um plano de reconciliação e
restauração, o qual inclui um povo específico.
É importante destacar,
nesse contexto, que desde o primeiro versículo da Bíblia Deus se coloca como o
Deus do Universo, não apenas de um povo. Ele é Senhor de tudo e todos, não
apenas de uma comunidade de prediletos. Essa situação, entretanto, não faz Deus
trabalhar sozinho para cumprir seu propósito. E assim como Deus tem escolhido
os discípulos de Jesus para serem seus agentes missionais, ele escolheu Israel
para comunicar a mensagem de reconciliação a todos os povos. E o seu ponto de
partida, seu start, foi o chamado de
Abraão. No começo “Abrão”; no estabelecimento da aliança (Gn 17), “Abraão”.
Mas, antes de analisar a história de Abraão e o seu chamado, é importante observar o que Johannes Blauw denomina “pré-história” de Israel. Ou seja, os 11 primeiros capítulos da Bíblia. Nessa narrativa, percebe-se a tensa relação de Deus com a humanidade.
Como isso se deu? De maneira resumida, pode-se dizer que no princípio toda a criação teve o eixo central no homem. Mas ele usa mal essa centralidade, não compreende seu papel como responsável pela criação e acaba afastando-se do Criador (criação e queda em Gn 1-3). Inicia-se, então, um estado de alienação culposa de Deus, o qual atinge toda a criação (a maldição da terra e a corrupção da humanidade em Gn 4-6) e culmina em severo juízo (dilúvio de Gn 7 e 8). Apesar disso, Deus permanece fiel à sua criação e ao ser humano (aliança com Noé em Gn 9). Surge, então, uma nova geração (Gn 10) que também se afasta de Deus (a torre de Babel em Gn 11) e termina sendo dispersa por toda a terra (Gn 11.8).
Agora sim é que podemos olhar para o chamado de Abraão. Nesse contexto de afastamento de Deus e dispersão das nações é que foi dito “Deixe sua terra, sua família e a casa de seu pai e vá para uma terra que eu mostrarei a você”. A partir daí, a relação de Deus com os povos mundo começa a se dar de modo particular através de um povo específico. Na verdade, apenas é possível entender Gn 12.1-3 como uma resposta de Deus ao problema da humanidade, exposto em Gn1-11. Assim, com um propósito claro, Abraão é chamado e enviado. Nesse sentido, podemos dizer que, da mesma forma que aconteceu com a igreja no Novo Testamento, Abraão foi CHAMADO PARA FORA.
É interessante observar, ainda, o contraste de estilo literário entre Gn 11 e 12, o qual marca o propósito específico do chamado de Abraão:
· “Assim nosso nome será famoso” (11.4b) e
“tornarei famoso o teu nome” (12.2b).
· “O Senhor os dispersou dali por toda a
terra” (11.8) e “farei de você um
grande povo” (12.2).
· “Para que não entendam mais uns aos outros”
- prenúncio de uma maldição sobre a arrogância (11.7) e “em ti serão
benditas todas as famílias da terra” (12.3).
Podemos perceber, nesse contraste, a arrogância humana universal e a graça de Deus canalizada através de um povo em particular. Gn 12, portanto, mostra a ação intencional da parte de Deus em resposta à rebeldia e à independência da humanidade, o que a leva à autodestruição certa. Além disso, podemos perceber sua ação graciosa, pois Deus continua se preocupando com toda a humanidade, mesmo diante de seu estado moral e espiritual corrompido. A graça de Deus pode, ainda, ser notada na própria escolha de Abraão, visto ser ele oriundo do povo da dispersão de Babel (Gn 11.31) e adorador de outros deuses (Js 24.2).
A Eleição
A escolha de Abraão... Quando analisamos o chamado de Abraão é inevitável, também, nos depararmos com o tema da eleição. Sem dúvida, eleição é um dos temas preferidos entre os presbiterianos. Com a ênfase na soberania divina, temos refrigério na máxima calvinista: “O cristão escolhido não pode rejeitar sua eleição, pois Deus há de curvá-lo até que ele aceite a Sua graça”. No entanto, a perspectiva da eleição tem, muitas vezes, tornado o povo de Deus passivo em relação a sua natureza missionária. É comum ouvirmos frases do tipo: “─Se é Deus quem salva e se Ele já tem seus escolhidos, não preciso me preocupar com os não-salvos!”. Isso não apenas está em desacordo com as Escrituras como com o próprio sentido do povo de Deus existir.
Ao observarmos, no entanto, a eleição em Abraão e na história de Israel, veremos o quanto ela tem de sentido missional. A afirmação de Gn 12.3, “Todas as famílias da terra serão abençoadas por seu intermédio”, indica que Abraão e seus descendentes atrairão a atenção das nações e as tornarão ansiosas por partilhar das suas bênçãos. O ato da eleição de Abraão e de Israel coincide com a promessa (ou a perspectiva) de “bênção para as nações”. A eleição, assim, é “eleição para o serviço”. Esse é o seu propósito, o seu fim. Quando o serviço é recusado, a eleição perde seu sentido. Pode-se observar a semelhança com Ef 2.10: “Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou de antemão para nós as praticarmos.”.
Seguindo essa percepção, pode-se dizer que a eleição separa Israel das nações para que ele possa servir a Deus e trazer todo o mundo até Ele. A eleição, assim, não tem nenhum propósito em si mesmo. Não somo eleitos e ponto final. Somos eleitos para alguma coisa. Israel, então, não é o objeto da eleição divina, mas o sujeito do serviço exigido por Deus. O serviço não existe por causa da eleição; a eleição existe por causa do serviço. Da mesma forma podemos dizer que não existe missão por causa do povo de Deus (ou da igreja), mas “povo de Deus” e “igreja” por causa da missão.
A passagem de Ex 19.5-6 ajuda a tornar clara essa perspectiva: “...se me obedecerem fielmente ...vocês serão o meu tesouro pessoal dentre todas as nações. Embora toda a terra seja minha, vocês serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa...”. Isso não quer dizer que haverá somente sacerdotes em Israel, mas que Israel cumprirá função sacerdotal como um povo no meio dos povos. Ele representará Deus no mundo das nações; levará todos os povos à presença de Deus. O que os sacerdotes são especificamente para o povo de Israel, Israel será para o mundo. A expressão “nação santa” nesse versículo indica o mesmo: aponta para a relação com Deus como um povo consagrado (ou separado) para um serviço especial. 1Pe 2.9, ainda, relaciona essa realidade com a igreja: “Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus, para anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.”
Chamado missional
É evidente até aqui que Deus não escolheu e chamou Abraão à toa, mas para um serviço em seu nome. Assim, ainda que Deus tenha como alvo alcançar o mundo inteiro, a partir de Gn 12 é possível perceber a sua relação especial com um povo específico. Eis aí um chamado missional: ser escolhido, separado e preparado com o propósito de se juntar à missão de Deus em direção ao mundo.
Dessa forma, o chamado missional de Abraão (e, implicitamente, de Israel) começa quando Deus diz: “Deixe sua terra, sua família e a casa de seu pai e vá para uma terra que eu mostrarei a você.”. A esse chamado é vinculada uma preciosa promessa: “todas as famílias da terra serão abençoadas por seu intermédio.”. É importante perceber, porém, dois imperativos dados a Abraão para vincular o chamado à promessa: primeiro de ser uma bênção (“...o abençoarei”; “...você será uma bênção”), e, segundo, de abençoar os povos do mundo (“...serão abençoadas por seu intermédio”). Aqui podemos notar o caráter explicitamente missional do chamado: Deus abençoa Abraão com o propósito de ele ser uma bênção, com o propósito de que sejam abençoados todos os povos do mundo. Abraão, sem dúvida, foi CHAMADO PARA FORA!
O envio do povo de Deus ao mundo, portanto, representa sua natureza, a qual sempre foi e sempre será missional. Por essa razão, a eleição e o chamado não constituem apenas privilégio, mas essencialmente responsabilidade. É privilégio apenas enquanto o povo é chamado de forma intencional e graciosa, mas passa a ser responsabilidade quando o mesmo povo é chamado para ser bênção a todos os povos da terra.
Nesse sentido, podemos encontrar no Antigo Testamento muitas pistas que nos levam a perceber as maneiras do povo de Deus ser bênção para às nações. Com certeza, os atos de Deus em favor do seu povo (Js 4.24) e a perspectiva de uma adoração que incluísse outros povos (Sl 66.5) contribuíram (e contribuem!) para revelar Deus. Mas, na perspectiva missional, é importante destacar uma maneira: o estilo de vida. Isso quer dizer que quando o povo de Deus segue as orientações divinas, os outros povos são atraídos a Ele. Ou seja, quando há justiça social, prosperidade, paz, alegria, fé, etc, no meio do povo de Deus, as nações glorificariam a Deus. Essa realidade fica bem clara em Dt 4.6-8: “ao obedecer e cumprir [os decretos de Deus] os outros povos verão a sabedoria e o discernimento de vocês... Que grande nação tem um Deus tão próximo?... Que grande nação tem decretos e preceitos tão justos...?”. É semelhante ao dito de Jesus em Mt 5.16: “Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês que está nos céus”. Deus chama, então, um povo específico para que ele seja obediente e leal, a fim de manifestar o caráter divino de compaixão e justiça em toda a terra e, assim, conclamar o mundo a glorificá-lo.
Diante desse quadro, é possível perceber que embora Israel não tivesse um propósito específico de ir a outros povos, seu chamado era o de viver de forma missional. Os povos seriam atraídos pelo que veriam em Israel. O CHAMADO PARA FORA persiste.
Infelizmente, ao longo da Bíblia, descobre-se que o povo de Deus acaba se caracterizando pela desobediência, a qual culmina em consequente juízo. Como diz Ez 36.22-23: “...meu nome foi profanado entre as nações”. E em Am 8.2: “Chegou o fim de Israel, o meu povo; não mais o pouparei”. Resta, pela graça, o cumprimento das promessas a partir de um descendente real, o próprio Jesus Cristo. Através dele e por ação, ainda, do seu povo (a igreja) é que a bênção de Deus alcançará todas as famílias da terra.
Implicações para a comunidade local
São muitas as implicações do chamado de Abraão para a comunidade local. Assim como Deus se autorevela, ele chama o seu povo para agir em nome dele. Assim como Deus ama todas as nações, ele chama o seu povo para amá-las. Portanto, a primeira implicação do chamado de Abraão para a comunidade local é ela aceitar o chamado missional da parte de Deus e buscar ser uma igreja verdadeiramente voltada para os de fora. Não cabe mais, nessa perspectiva, satisfazer o conforto particular. A autossatisfação se caracteriza por ser um fim em si mesmo e não representa o chamado de Deus. Na verdade, expressa a cultura de consumo que estamos acostumados a ver na sociedade atual. Nossa tendência é tratar a igreja como uma pequena empresa orientada por resultados, onde o pastor é o gerente executivo e os membros os clientes. A exigência dos clientes é que lhe seja prestado um bom serviço e o papel da liderança é fazer com que eles fiquem satisfeitos. Muitas vezes, quando nos reunimos, nossa preocupação é se a mensagem, a música e o trabalho com as crianças foram satisfatórios para nós, se atenderam a nossa expectativa. Se não foram suficientes, começamos a pensar em outra comunidade. Não há nada de missional nisso. Não tem nada a ver com o chamado de Deus para reconciliar e restaurar o mundo.
Ser uma igreja que responde ao chamado missional, portanto, implica em rever a maneira de ser igreja. Isso significa, por exemplo, evitar a criação de uma subcultura evangélica: parece existir um padrão em termos de vocabulário próprio quando se está entre pessoas da comunidade evangélica (o “crentês), bem como aspectos dos ritos ou elementos litúrgicos que causam estranheza ao público de fora (estilo de música e manifestações próprias em relação a elas, “senta e levanta” dos bancos, forma de exposição da mensagem, etc). Isso tem a ver com a nossa preferência pessoal, não com a revelação bíblica; tem a ver com a nossa cultura, não com a fidelidade a Deus. Temos, então, que zelar para que o nosso estilo particular não se torne barreira para a mensagem de Deus às nações.
Outra implicação do chamado missional observado em Abraão é que, assim como Deus, a igreja deve agir com intencionalidade e graça para com os de fora. Isto significa querer manifestar a glória de Deus para quem está afastado dela, independente de quem seja ou em que estado moral se encontre. Somos muito rápidos para julgar alguém pelos seus pecados e nos afastar dele. Nossa disciplina é impiedosa, ao ponto de nos colocarmos no lugar de Deus para fazermos aquilo que Deus jamais faria. Nesse caso, não agimos nem com intensão e nem com graça. “Mas Deus mostra o seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores” (Rm 5.8).
Portanto, o nosso chamado inclui tomar a iniciativa para, com criatividade, comunicar a mensagem da reconciliação para todas as pessoas. Nesse sentido, devemos praticar o evangelismo “relacional-intencional”. Isso quer dizer que devemos ser amigos de não-crentes, mesmo daqueles que sejam diferentes nós: o jardineiro, o zelador, o empresário, o médico ou qualquer outro. É através dos nossos relacionamentos que podemos levá-los ao encontro de Deus. Não quer dizer, porém, ser falso ou perder a integridade. Embora não seja íntegro se relacionar com alguém apenas para convertê-lo em determinado tempo, é íntegro querer que as pessoas com as quais você se relaciona se convertam, bem como é íntegro estabelecer relacionamentos com a intensão de converter as pessoas.
O exemplo de Abraão também nos leva a pensar em como ser bênção para os outros povos, no sentido de viver de maneira que atraia outras pessoas a Deus. O estilo de vida é, realmente, um desafio para a igreja nos dias de hoje. Até porque a sua imagem se constitui em uma barreira para a mensagem da reconciliação. É comum conhecermos um amigo ou vizinho crente que não apresenta um comportamento adequado, contribuindo para a imagem negativa da igreja. A mídia, da mesma forma, não ajuda em tornar melhor a imagem dos cristãos: ela apresenta reuniões repletas de emocionalismos e manipulações financeiras, além de escândalos éticos e morais por parte de líderes. Nós mesmos, constantemente, fazemos coisas das quais nos arrependemos.
É preciso, portanto, em primeiro lugar, compreender que o povo de Deus não é um grupo de pessoas perfeitas. Ele é, antes, um grupo de agraciados, limitados e falhos, que buscam ser restaurados através do amor incondicional de Deus. E, em segundo lugar, é imprescindível que a igreja busque um processo de formação espiritual sério e permanente. O grande alvo da comunidade de Deus é ser parecida com Cristo: “Pois aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.” (Rm 8.29). Nada menos do que isso deve nos interessar. Felizmente, isso é obra do Espírito, mediante muita graça e amor.
Finalmente...
Para concluir nosso
estudo, é importante lembrar que Deus revela sua disposição em se reconciliar
com mundo desde o livro de Gênesis. Ele elege e chama Abraão para ser canal de
bênção às nações, a fim de passar essa incumbência a todo o povo de Deus, em
todas as épocas. Nosso desafio como povo de Deus do século XXI é, portanto, viver
de maneira missional de forma que Deus seja glorificado pelo mundo inteiro, a
fim de fazer jus a nossa vocação.

Nenhum comentário:
Postar um comentário