sexta-feira, 1 de abril de 2016

Chegou a hora!



Mateus 9.35-38

35 Jesus ia passando por todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, pregando as boas novas do Reino e curando todas as enfermidades e doenças. 36 Ao ver as multidões, teve compaixão delas, porque estavam aflitas e desamparadas, como ovelhas sem pastor. 37 Então disse aos seus discípulos: A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos. 38 Peçam, pois, ao Senhor da colheita que envie trabalhadores para a sua colheita.


Eclesiologia Missional

Há uns dias atrás visitei um senhor que revelava a angústia do mundo contemporâneo. Ele dizia que via a televisão toda manhã e, a cada dia, ficava mais desanimado com o futuro do mundo visto na sua tela. Eram tragédias, mortes, traições, casos de corrupção... Pular de canal não resolvia o seu dilema, pois as notícias não eram diferentes. Uma das notícias daquela manhã, certamente acompanhada por todos nós, mostrava a violência praticada por crianças: jovens que haviam matado outros jovens em uma cidade do interior do estado. Sua conclusão, porém, foi lógica: “Se crianças fazem isso é porque o mal já nasceu com elas. Então o mal está em todo o lugar e com todas as pessoas! Que esperança temos nós?”

Esse senhor não conhecida nada de teologia, não entendia de doutrinas presbiterianas e não queria um relacionamento mais profundo com Deus. Mas ele percebia que alguma coisa estava errada com o mundo e que alguém precisava intervir, urgente...

Um povo perdido e aflito

Talvez a angústia do senhor que eu visitei fosse semelhante a das pessoas do texto bíblico. Elas estavam aflitas e desamparadas. Não sabiam para onde ir. Não sabiam quem seguir. Estavam há muito tempo sendo orientadas por grandes acadêmicos (líderes religiosos) que não traziam consolo a sua alma. Pelo contrário, traziam fardos pesados e ensinamentos duros de seguir. Diziam que o povo seria feliz se seguisse determinadas regras e leis. Com grande eloquência, mostravam nas Escrituras que Deus exigia o cumprimento de algumas exigências para abençoar. Mas o povo não obtinha o tão sonhado alívio: a angústia, a miséria, a opressão ainda rondava suas vidas.

Qual o motivo dessa situação? Se haviam bons professores, porque continuavam nesse estado?

Jesus, com o coração cheio de compaixão, conhecendo a aflição de suas almas, dá a resposta: são como ovelhas sem pastor. Parece que essa era a condição espiritual das multidões. Tinham mestres, mas não pastores. A palavra “aflitos” no texto tem o sentido de afligir, molestar, preocupar, perturbar. Isso traz a ideia de um povo que estava sendo molestado, importunado e desnorteado por aqueles que deveriam ser seus guias. Já o termo “abatidos” tem um sentido de prostrar, lançar para baixo por embriaguez ou ferimento mortal, referindo-se a um desespero no íntimo. Essas expressões, portanto, sinalizam um povo maltratado e indefeso que deveriam ter sido levados a Deus, mas que foram levados a outros seres humanos, os quais insistem em fazerem as coisas do seu jeito...

Jesus, ao descrever a situação, traz imagens bem conhecidas do Antigo Testamento. Ele está conversando com os discípulos e todos estão aos seus pés, observando atentamente cada palavra, cada gesto, cada figura de linguagem. Então, ao falar de um povo que parece com ovelhas sem pastor, Jesus traz à mente das pessoas o conhecido texto de Ezequiel 34. Naquela passagem, o profeto compara a liderança com falsos pastores, que não cuidam das necessidades das ovelhas (v.2-4), as tratando com violência e rigidez (4, 17-19). No final, não sobrou nenhum pastor (v.8). E as ovelhas? Foram mortas de fome pelos líderes, além de escravizadas, saqueadas e insultadas pelas nações (v.29).

Dessa forma, a crítica apresentada por Jesus é que, embora houvesse grande número de líderes e sinagogas (só em Jerusalém havia mais de quatrocentas sinagogas), eles eram negligentes e se afastaram de Deus, verdadeiro pastor, e do povo; com isso, além de não guiá-los corretamente, impediam o acesso ao Reino de Deus (Mt 23.13).


Um mundo perdido e aflito!

O mundo de hoje não é diferente do mundo bíblico. Embora presenciemos o rápido desenvolvimento tecnológico e científico em aparelhos eletrônicos, computadores, celulares e drogas que prometem melhorar a qualidade de vida, a realidade é marcada pela injustiça, medo, violência, corrupção e inúmeros problemas emocionais. A maior parte da população (quase 80 %) habita em cidades de grandes contrastes, com a miséria e a riqueza coexistindo lado a lado. Nelas há uma desconfortável sensação de vazio. Uma onda de frustração, futilidade e falta de sentido vem tomando conta da sociedade. A família, que sempre foi reconhecida como a “célula-mãe”, hoje representa a matriz de muitas patologias pessoais e sociais. Os educadores perderam a autoridade e o ânimo. Os políticos e as autoridades perderam o respeito e a confiança dos cidadãos. E a igreja, símbolo de ética e moralidade, encontra-se mergulhada em muitos escândalos. Parece que um sentimento de desesperança tem dominado a existência humana. Como o senhor que via a maldade do mundo estampada na tela da televisão, nos perguntamos: “que esperança temos nós?”.

Creio que a música Socorro, de Arnaldo Antunes, expressa bem esse sentimento:
“Socorro! Não estou sentindo nada... Nem medo, nem calor, nem fogo... Não vai dar mais pra chorar... Nem pra rir... Socorro! Alguma alma mesmo que penada me empreste suas penas... Já não sinto amor, nem dor. Já não sinto nada... Socorro! Alguém me dê um coração... que esse já não bate, nem apanha. Por favor! Uma emoção pequena, qualquer coisa! Qualquer coisa que se sinta... Tem tantos sentimentos deve ter algum que sirva...”

Diante desse quadro, quem são os nossos guias? Infelizmente, quem orienta os nossos passos não é Deus, pois estamos em uma sociedade cada vez mais secularizada. Quem tem ditado as regras, na verdade, é a cultura.  Você vale o que você tem ou o que você parece ter.

Há um tempo, conversando com uma senhora, ao perguntar sua profissão, percebi que ficara constrangida. Quase se desculpando, ela me disse que era “apenas” dona de casa. Era como dissesse que não era ninguém. Numa cultura atrelada ao sucesso profissional, ser boa mãe e dedicada dona de casa torna a pessoa como um “ninguém”. Ouço, também, quase diariamente, jovens afirmarem que não sobrevivem sem celular ou computador. Se não estiverem conectados, se não participarem das redes sociais, não são nada, não existem. Num mundo tecnológico, competitivo e consumista quem guia a humanidade é a cultura de consumo.

É claro que muitas dessas expectativas são frustradas, pois estão atreladas à busca por afirmação. E, quanto mais buscam essas coisas, maior a ansiedade e a insegurança. E, à medida que a frustração aumenta, aumentam os antidepressivos, a procura por terapias, por gurus de autoajuda, por técnicas de sucesso profissional e pela indústria do entretenimento. Muitos guias, muitas orientações. Todos, com grande eloquência, mostram em suas “escrituras” o que é necessário fazer para ser abençoado. Mas o povo continua aflito e abatido, tentando preencher o sempre crescente vazio na alma. Isso mostra que os guias são falsos pastores; não levam o povo para Deus e impedem o acesso ao Seu Reino.

O reino de Deus chegou!

Mas eis uma grande notícia. Há esperança para essa situação! Uma boa novidade está para ser anunciada. O mundo não precisa ser sempre desse jeito. Jesus, o Filho do Deus Vivo, tinha em seus lábios uma mensagem arrebatadora. Ele andava de cidade em cidade, povoado em povoado, sinagogas em sinagogas (ou talvez igrejas em igrejas), dizendo: Deus interveio no mundo, o seu reino chegou, a promessa de uma nova terra e de uma nova humanidade começa a se cumprir.

Jesus, aqui, direciona os olhos dos discípulos para verem dois quadros na mesma paisagem. [Percebam a profundidade do seu ensino! Acompanhem os discípulos na visão dessa paisagem!]. No primeiro quadro, ele revela as multidões como rebanhos devastados, vítimas de negligência e egoísmo. Mas, no segundo quadro, as multidões são como campos de colheita maduros, esperando para serem colhidos.
Estejam atentos para a figura da colheita nas parábolas de Jesus: é a figura do tempo da salvação e de suas abundantes riquezas. Jesus também usa outros símbolos bíblicos para anunciar que o tempo de salvação é chegado: as núpcias (Mc 2.18), a luz que brilha (Mt 5.14; Mc 4.21); a figueira (Mc 13.28s); vinho novo (Mc 2.22); veste festiva (Lc 15.22), entre outros. Mas aqui, Jesus convida os seus discípulos a observarem uma situação real. As multidões estão diante deles. “Abram os olhos e vejam!”, diz o Cristo. De um aparente caos, então, surge uma surpreendente esperança. Uma luz no fim do túnel. O começo de uma jornada. O recrutamento para uma missão.

Nesse momento, quando Jesus anuncia e faz os discípulos anunciarem a chegada do reino de Deus, ele revela a vitória de Deus sobre o mal, a possibilidade de uma nova humanidade, de um novo mundo. Há esperança para aquele que está aflito e abatido. Deus iniciou um processo de cura de todos os povos em Jesus. Ele morreu no lugar de todos os homens e mulheres, e, pela graça, deu vida a todos que o seguirem. Deus quer endireitar o mundo. Sua mensagem é de esperança.

Portanto, a mensagem do texto é: Chegou a hora! Esse é o momento de divulgar as boas-novas, o tempo da salvação está aqui, vamos nos empenhar nessa tarefa! A colheita é grande e está pronta! (É mais ou menos como em uma lavoura pronta para ser colhida: se demorar o grão passa do ponto, os insetos atacam ou a chuva impedirá o trabalho. Não há tempo a perder, é hora da colheita!).

E lá está Jesus, diante da multidão aflita e abatida, ensinando seus discípulos boquiabertos. Eles não tinham se dado conta de sua tarefa. Eles imaginavam a restauração do povo com algo como Deus trazendo um grande exército e eliminando o mal do mundo (ou talvez apenas do seu povo). Jesus é firme, é incisivo. Talvez tenha visto em seus rostos uma mescla de frustração e maravilha. Por fim, Jesus os consola reafirmando a soberania de Deus na missão: “Mesmo que os pastores tenham deixado o povo abandonado, Deus como o soberano pastor cuida dele (Sl 23). Ele estará com vocês, pois é o mais interessado pelo êxito da colheita, afinal, o campo lhe pertence. Peçam, pois, a Deus que envie mais trabalhadores...”.
Notem a ênfase de Mt 9.38 em pedir (também rogar, suplicar) a Deus. Ela pode ser compreendida como uma atitude de confiança de que o Deus soberano enviará novos discípulos para perpetuar a missão. A obra em função reino de Deus continuará em andamento!

O reino de Deus em andamento!

Deus quer endireitar o mundo. A mensagem de esperança e de salvação continua a ressoar em nossos ouvidos ainda hoje. A obra não está acabada. Ela está em processo. Também, os planos de Deus não foram frustrados. Eles estão em andamento. E nós fazemos parte desse plano. Não podemos jamais esquecer disso. Talvez uma das limitações da igreja nesses tempos é não conseguir transmitir esse recado. Passamos muito tempo ensinado para as pessoas que esse mundo era mal e que, por isso, deveríamos resistir a ele, apenas sobreviver. Então, quando morrermos, chegaremos ao paraíso, onde não haverá mais sofrimento nem tribulação. Agora, nos dias de hoje, muitos tem ensinado que Deus supre todas as necessidades de satisfação pessoal, a partir de sacrifícios financeiros ou declarações positivistas – se adequaram aos ensinos de mestres da cultura contemporânea. E o mal continua se manifestando dia após dia. A frustração, o sentimento de vazio, a depressão, as consequências ambientais, a corrupção... A mensagem do evangelho, porém, é para intervir no mundo. É para ser trabalhadores na colheita, conscientes de que Deus é o dono dela. Somos colaboradores de sua missão. E colaboradores são agentes ativos, nunca passivos. Como diria Geraldo Vandré: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

Penso agora naquele senhor que conversou comigo, desesperançado na frente da televisão. Imagino uma pergunta não feita diante de minha exposição sobre a esperança de que um novo mundo é possível: “Mas, quando chegará o reino em definitivo?” Essa mesma pergunta foi feita pelos discípulos após a ressurreição de Jesus. Sua resposta, porém, foi simples: não compete a vocês conhecerem tempos ou épocas que o Pai reservou para a sua exclusiva autoridade (At 1.6-7). Assim, nossa esperança final continua sendo de um cumprimento pleno das promessas de Deus, onde ressuscitaremos junto com Cristo. Mas isso é mistério divino; não compete a nós determinar essas coisas. Em outras palavras, nosso papel é contribuir para que o reino de Deus se estabeleça aqui e agora. Nós temos que marcar a nossa geração. Temos que trazer respostas e consolo ao mundo aflito e abatido. Temos que apontar o caminho do evangelho, ensinar todas as coisas ditas por Jesus, convocar todas as pessoas a segui-lo e viver, agora, a nova humanidade em Cristo.

Aí entra nosso grande consolo, da mesma forma que foi com os discípulos: Jesus diz para PEDIR AO DONO da colheita para enviar mais trabalhadores. Vemos aqui a realidade da soberania de Deus atuando sobre a história; é ele quem envia os trabalhadores e é ele quem fará com que a colheita tenha êxito. Aqui podemos ver que aquilo que alimenta a nossa paixão e a nossa esperança é, sem dúvida, nossa vida de oração. Sem o diálogo com Deus a tendência é ouvir a voz da cultura e perdermos a esperança de um novo mundo. Mais o que nunca, a exigência para o trabalho de colheita é o tempo a sós com Deus (tempo de solitude), onde ouvimos Deus falar conosco; além disso, um tempo de clamor e intercessão como comunidade do reino, que vive a esperança na qual foi chamada. Lembremos sempre das palavras de Calvino, onde ele diz que a oração não é para mudar Deus, mas para mudar aquele que ora... Nosso compromisso como ser “orante” não é expor o nosso mundo para Deus (antes que a palavra chegue a nossa boca, ele já sabe o que vamos falar – Mt 6.8). Mas penetrar no mundo de Deus e se deixar conduzir por aquele que é puro compaixão e amor.

Conclusão

Para finalizar, gostaria de lembrar que o trabalho rural era comum na época de Jesus. Na agricultura, aqueles que deixavam a lavoura sem colheita eram considerados insensatos ou, pelo menos, negligentes. Assim, as palavras proferidas por Jesus requeriam ação. Percebe-se, portanto, Jesus chamando os trabalhadores para o trabalho: “Vejam, vocês não podem deixar os campos sem serem colhidos. Não sejam negligentes como os outros.”. Nesse contexto, os trabalhadores são os que assumirão a tarefa daqui por diante. Cabe a nós estarmos inseridos nesse processo.

Como última palavra de ânimo, quero de usar uma conhecida ilustração do beija-flor apagando um incêndio, porém com uma aplicação reformulada: “Houve um incêndio na floresta e enquanto todos os bichos corriam apavorados, um pequeno beija-flor ia do rio para o incêndio levando gotinhas de água em seu bico. O leão, vendo aquilo, perguntou para o beija-flor: ‘Ô beija-flor, você acha que vai conseguir apagar o incêndio sozinho?’ E o beija-flor respondeu: ‘Eu não sei se vou conseguir, mas estou fazendo a minha parte’”. Realmente, ele fez a sua parte, mas sozinho nunca conseguirá cumprir sua tarefa. No máximo, ele morrerá queimado e será reverenciado como mártir (talvez muitos gostem disso). Nosso papel, contudo, não é o de obter reconhecimento, pois a glória deve ser dada a Jesus. Então, ao invés de apenas fazer a sua parte, o beija-flor deveria bicar outros animais para que a tarefa possa ser cumprida pela infinidade de dons e potencialidades. E, principalmente, rogar ao Pai todo-poderoso, para que outros sejam mobilizados para o trabalho.

Que Deus abençoe o propósito do nosso coração.