sexta-feira, 1 de abril de 2016

Chegou a hora!



Mateus 9.35-38

35 Jesus ia passando por todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, pregando as boas novas do Reino e curando todas as enfermidades e doenças. 36 Ao ver as multidões, teve compaixão delas, porque estavam aflitas e desamparadas, como ovelhas sem pastor. 37 Então disse aos seus discípulos: A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos. 38 Peçam, pois, ao Senhor da colheita que envie trabalhadores para a sua colheita.


Eclesiologia Missional

Há uns dias atrás visitei um senhor que revelava a angústia do mundo contemporâneo. Ele dizia que via a televisão toda manhã e, a cada dia, ficava mais desanimado com o futuro do mundo visto na sua tela. Eram tragédias, mortes, traições, casos de corrupção... Pular de canal não resolvia o seu dilema, pois as notícias não eram diferentes. Uma das notícias daquela manhã, certamente acompanhada por todos nós, mostrava a violência praticada por crianças: jovens que haviam matado outros jovens em uma cidade do interior do estado. Sua conclusão, porém, foi lógica: “Se crianças fazem isso é porque o mal já nasceu com elas. Então o mal está em todo o lugar e com todas as pessoas! Que esperança temos nós?”

Esse senhor não conhecida nada de teologia, não entendia de doutrinas presbiterianas e não queria um relacionamento mais profundo com Deus. Mas ele percebia que alguma coisa estava errada com o mundo e que alguém precisava intervir, urgente...

Um povo perdido e aflito

Talvez a angústia do senhor que eu visitei fosse semelhante a das pessoas do texto bíblico. Elas estavam aflitas e desamparadas. Não sabiam para onde ir. Não sabiam quem seguir. Estavam há muito tempo sendo orientadas por grandes acadêmicos (líderes religiosos) que não traziam consolo a sua alma. Pelo contrário, traziam fardos pesados e ensinamentos duros de seguir. Diziam que o povo seria feliz se seguisse determinadas regras e leis. Com grande eloquência, mostravam nas Escrituras que Deus exigia o cumprimento de algumas exigências para abençoar. Mas o povo não obtinha o tão sonhado alívio: a angústia, a miséria, a opressão ainda rondava suas vidas.

Qual o motivo dessa situação? Se haviam bons professores, porque continuavam nesse estado?

Jesus, com o coração cheio de compaixão, conhecendo a aflição de suas almas, dá a resposta: são como ovelhas sem pastor. Parece que essa era a condição espiritual das multidões. Tinham mestres, mas não pastores. A palavra “aflitos” no texto tem o sentido de afligir, molestar, preocupar, perturbar. Isso traz a ideia de um povo que estava sendo molestado, importunado e desnorteado por aqueles que deveriam ser seus guias. Já o termo “abatidos” tem um sentido de prostrar, lançar para baixo por embriaguez ou ferimento mortal, referindo-se a um desespero no íntimo. Essas expressões, portanto, sinalizam um povo maltratado e indefeso que deveriam ter sido levados a Deus, mas que foram levados a outros seres humanos, os quais insistem em fazerem as coisas do seu jeito...

Jesus, ao descrever a situação, traz imagens bem conhecidas do Antigo Testamento. Ele está conversando com os discípulos e todos estão aos seus pés, observando atentamente cada palavra, cada gesto, cada figura de linguagem. Então, ao falar de um povo que parece com ovelhas sem pastor, Jesus traz à mente das pessoas o conhecido texto de Ezequiel 34. Naquela passagem, o profeto compara a liderança com falsos pastores, que não cuidam das necessidades das ovelhas (v.2-4), as tratando com violência e rigidez (4, 17-19). No final, não sobrou nenhum pastor (v.8). E as ovelhas? Foram mortas de fome pelos líderes, além de escravizadas, saqueadas e insultadas pelas nações (v.29).

Dessa forma, a crítica apresentada por Jesus é que, embora houvesse grande número de líderes e sinagogas (só em Jerusalém havia mais de quatrocentas sinagogas), eles eram negligentes e se afastaram de Deus, verdadeiro pastor, e do povo; com isso, além de não guiá-los corretamente, impediam o acesso ao Reino de Deus (Mt 23.13).


Um mundo perdido e aflito!

O mundo de hoje não é diferente do mundo bíblico. Embora presenciemos o rápido desenvolvimento tecnológico e científico em aparelhos eletrônicos, computadores, celulares e drogas que prometem melhorar a qualidade de vida, a realidade é marcada pela injustiça, medo, violência, corrupção e inúmeros problemas emocionais. A maior parte da população (quase 80 %) habita em cidades de grandes contrastes, com a miséria e a riqueza coexistindo lado a lado. Nelas há uma desconfortável sensação de vazio. Uma onda de frustração, futilidade e falta de sentido vem tomando conta da sociedade. A família, que sempre foi reconhecida como a “célula-mãe”, hoje representa a matriz de muitas patologias pessoais e sociais. Os educadores perderam a autoridade e o ânimo. Os políticos e as autoridades perderam o respeito e a confiança dos cidadãos. E a igreja, símbolo de ética e moralidade, encontra-se mergulhada em muitos escândalos. Parece que um sentimento de desesperança tem dominado a existência humana. Como o senhor que via a maldade do mundo estampada na tela da televisão, nos perguntamos: “que esperança temos nós?”.

Creio que a música Socorro, de Arnaldo Antunes, expressa bem esse sentimento:
“Socorro! Não estou sentindo nada... Nem medo, nem calor, nem fogo... Não vai dar mais pra chorar... Nem pra rir... Socorro! Alguma alma mesmo que penada me empreste suas penas... Já não sinto amor, nem dor. Já não sinto nada... Socorro! Alguém me dê um coração... que esse já não bate, nem apanha. Por favor! Uma emoção pequena, qualquer coisa! Qualquer coisa que se sinta... Tem tantos sentimentos deve ter algum que sirva...”

Diante desse quadro, quem são os nossos guias? Infelizmente, quem orienta os nossos passos não é Deus, pois estamos em uma sociedade cada vez mais secularizada. Quem tem ditado as regras, na verdade, é a cultura.  Você vale o que você tem ou o que você parece ter.

Há um tempo, conversando com uma senhora, ao perguntar sua profissão, percebi que ficara constrangida. Quase se desculpando, ela me disse que era “apenas” dona de casa. Era como dissesse que não era ninguém. Numa cultura atrelada ao sucesso profissional, ser boa mãe e dedicada dona de casa torna a pessoa como um “ninguém”. Ouço, também, quase diariamente, jovens afirmarem que não sobrevivem sem celular ou computador. Se não estiverem conectados, se não participarem das redes sociais, não são nada, não existem. Num mundo tecnológico, competitivo e consumista quem guia a humanidade é a cultura de consumo.

É claro que muitas dessas expectativas são frustradas, pois estão atreladas à busca por afirmação. E, quanto mais buscam essas coisas, maior a ansiedade e a insegurança. E, à medida que a frustração aumenta, aumentam os antidepressivos, a procura por terapias, por gurus de autoajuda, por técnicas de sucesso profissional e pela indústria do entretenimento. Muitos guias, muitas orientações. Todos, com grande eloquência, mostram em suas “escrituras” o que é necessário fazer para ser abençoado. Mas o povo continua aflito e abatido, tentando preencher o sempre crescente vazio na alma. Isso mostra que os guias são falsos pastores; não levam o povo para Deus e impedem o acesso ao Seu Reino.

O reino de Deus chegou!

Mas eis uma grande notícia. Há esperança para essa situação! Uma boa novidade está para ser anunciada. O mundo não precisa ser sempre desse jeito. Jesus, o Filho do Deus Vivo, tinha em seus lábios uma mensagem arrebatadora. Ele andava de cidade em cidade, povoado em povoado, sinagogas em sinagogas (ou talvez igrejas em igrejas), dizendo: Deus interveio no mundo, o seu reino chegou, a promessa de uma nova terra e de uma nova humanidade começa a se cumprir.

Jesus, aqui, direciona os olhos dos discípulos para verem dois quadros na mesma paisagem. [Percebam a profundidade do seu ensino! Acompanhem os discípulos na visão dessa paisagem!]. No primeiro quadro, ele revela as multidões como rebanhos devastados, vítimas de negligência e egoísmo. Mas, no segundo quadro, as multidões são como campos de colheita maduros, esperando para serem colhidos.
Estejam atentos para a figura da colheita nas parábolas de Jesus: é a figura do tempo da salvação e de suas abundantes riquezas. Jesus também usa outros símbolos bíblicos para anunciar que o tempo de salvação é chegado: as núpcias (Mc 2.18), a luz que brilha (Mt 5.14; Mc 4.21); a figueira (Mc 13.28s); vinho novo (Mc 2.22); veste festiva (Lc 15.22), entre outros. Mas aqui, Jesus convida os seus discípulos a observarem uma situação real. As multidões estão diante deles. “Abram os olhos e vejam!”, diz o Cristo. De um aparente caos, então, surge uma surpreendente esperança. Uma luz no fim do túnel. O começo de uma jornada. O recrutamento para uma missão.

Nesse momento, quando Jesus anuncia e faz os discípulos anunciarem a chegada do reino de Deus, ele revela a vitória de Deus sobre o mal, a possibilidade de uma nova humanidade, de um novo mundo. Há esperança para aquele que está aflito e abatido. Deus iniciou um processo de cura de todos os povos em Jesus. Ele morreu no lugar de todos os homens e mulheres, e, pela graça, deu vida a todos que o seguirem. Deus quer endireitar o mundo. Sua mensagem é de esperança.

Portanto, a mensagem do texto é: Chegou a hora! Esse é o momento de divulgar as boas-novas, o tempo da salvação está aqui, vamos nos empenhar nessa tarefa! A colheita é grande e está pronta! (É mais ou menos como em uma lavoura pronta para ser colhida: se demorar o grão passa do ponto, os insetos atacam ou a chuva impedirá o trabalho. Não há tempo a perder, é hora da colheita!).

E lá está Jesus, diante da multidão aflita e abatida, ensinando seus discípulos boquiabertos. Eles não tinham se dado conta de sua tarefa. Eles imaginavam a restauração do povo com algo como Deus trazendo um grande exército e eliminando o mal do mundo (ou talvez apenas do seu povo). Jesus é firme, é incisivo. Talvez tenha visto em seus rostos uma mescla de frustração e maravilha. Por fim, Jesus os consola reafirmando a soberania de Deus na missão: “Mesmo que os pastores tenham deixado o povo abandonado, Deus como o soberano pastor cuida dele (Sl 23). Ele estará com vocês, pois é o mais interessado pelo êxito da colheita, afinal, o campo lhe pertence. Peçam, pois, a Deus que envie mais trabalhadores...”.
Notem a ênfase de Mt 9.38 em pedir (também rogar, suplicar) a Deus. Ela pode ser compreendida como uma atitude de confiança de que o Deus soberano enviará novos discípulos para perpetuar a missão. A obra em função reino de Deus continuará em andamento!

O reino de Deus em andamento!

Deus quer endireitar o mundo. A mensagem de esperança e de salvação continua a ressoar em nossos ouvidos ainda hoje. A obra não está acabada. Ela está em processo. Também, os planos de Deus não foram frustrados. Eles estão em andamento. E nós fazemos parte desse plano. Não podemos jamais esquecer disso. Talvez uma das limitações da igreja nesses tempos é não conseguir transmitir esse recado. Passamos muito tempo ensinado para as pessoas que esse mundo era mal e que, por isso, deveríamos resistir a ele, apenas sobreviver. Então, quando morrermos, chegaremos ao paraíso, onde não haverá mais sofrimento nem tribulação. Agora, nos dias de hoje, muitos tem ensinado que Deus supre todas as necessidades de satisfação pessoal, a partir de sacrifícios financeiros ou declarações positivistas – se adequaram aos ensinos de mestres da cultura contemporânea. E o mal continua se manifestando dia após dia. A frustração, o sentimento de vazio, a depressão, as consequências ambientais, a corrupção... A mensagem do evangelho, porém, é para intervir no mundo. É para ser trabalhadores na colheita, conscientes de que Deus é o dono dela. Somos colaboradores de sua missão. E colaboradores são agentes ativos, nunca passivos. Como diria Geraldo Vandré: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

Penso agora naquele senhor que conversou comigo, desesperançado na frente da televisão. Imagino uma pergunta não feita diante de minha exposição sobre a esperança de que um novo mundo é possível: “Mas, quando chegará o reino em definitivo?” Essa mesma pergunta foi feita pelos discípulos após a ressurreição de Jesus. Sua resposta, porém, foi simples: não compete a vocês conhecerem tempos ou épocas que o Pai reservou para a sua exclusiva autoridade (At 1.6-7). Assim, nossa esperança final continua sendo de um cumprimento pleno das promessas de Deus, onde ressuscitaremos junto com Cristo. Mas isso é mistério divino; não compete a nós determinar essas coisas. Em outras palavras, nosso papel é contribuir para que o reino de Deus se estabeleça aqui e agora. Nós temos que marcar a nossa geração. Temos que trazer respostas e consolo ao mundo aflito e abatido. Temos que apontar o caminho do evangelho, ensinar todas as coisas ditas por Jesus, convocar todas as pessoas a segui-lo e viver, agora, a nova humanidade em Cristo.

Aí entra nosso grande consolo, da mesma forma que foi com os discípulos: Jesus diz para PEDIR AO DONO da colheita para enviar mais trabalhadores. Vemos aqui a realidade da soberania de Deus atuando sobre a história; é ele quem envia os trabalhadores e é ele quem fará com que a colheita tenha êxito. Aqui podemos ver que aquilo que alimenta a nossa paixão e a nossa esperança é, sem dúvida, nossa vida de oração. Sem o diálogo com Deus a tendência é ouvir a voz da cultura e perdermos a esperança de um novo mundo. Mais o que nunca, a exigência para o trabalho de colheita é o tempo a sós com Deus (tempo de solitude), onde ouvimos Deus falar conosco; além disso, um tempo de clamor e intercessão como comunidade do reino, que vive a esperança na qual foi chamada. Lembremos sempre das palavras de Calvino, onde ele diz que a oração não é para mudar Deus, mas para mudar aquele que ora... Nosso compromisso como ser “orante” não é expor o nosso mundo para Deus (antes que a palavra chegue a nossa boca, ele já sabe o que vamos falar – Mt 6.8). Mas penetrar no mundo de Deus e se deixar conduzir por aquele que é puro compaixão e amor.

Conclusão

Para finalizar, gostaria de lembrar que o trabalho rural era comum na época de Jesus. Na agricultura, aqueles que deixavam a lavoura sem colheita eram considerados insensatos ou, pelo menos, negligentes. Assim, as palavras proferidas por Jesus requeriam ação. Percebe-se, portanto, Jesus chamando os trabalhadores para o trabalho: “Vejam, vocês não podem deixar os campos sem serem colhidos. Não sejam negligentes como os outros.”. Nesse contexto, os trabalhadores são os que assumirão a tarefa daqui por diante. Cabe a nós estarmos inseridos nesse processo.

Como última palavra de ânimo, quero de usar uma conhecida ilustração do beija-flor apagando um incêndio, porém com uma aplicação reformulada: “Houve um incêndio na floresta e enquanto todos os bichos corriam apavorados, um pequeno beija-flor ia do rio para o incêndio levando gotinhas de água em seu bico. O leão, vendo aquilo, perguntou para o beija-flor: ‘Ô beija-flor, você acha que vai conseguir apagar o incêndio sozinho?’ E o beija-flor respondeu: ‘Eu não sei se vou conseguir, mas estou fazendo a minha parte’”. Realmente, ele fez a sua parte, mas sozinho nunca conseguirá cumprir sua tarefa. No máximo, ele morrerá queimado e será reverenciado como mártir (talvez muitos gostem disso). Nosso papel, contudo, não é o de obter reconhecimento, pois a glória deve ser dada a Jesus. Então, ao invés de apenas fazer a sua parte, o beija-flor deveria bicar outros animais para que a tarefa possa ser cumprida pela infinidade de dons e potencialidades. E, principalmente, rogar ao Pai todo-poderoso, para que outros sejam mobilizados para o trabalho.

Que Deus abençoe o propósito do nosso coração.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Igreja: chamados para fora - parte 3/3

Eclesiologia Missional


IGREJA: CHAMADOS PARA FORA

3. Olhando a partir do centro...

Novamente Jesus disse: “Paz seja com vocês! Assim como o Pai me enviou, eu os envio” (Jo 20.21).

Como temos visto nos estudos anteriores, a igreja, CHAMADA PARA FORA, possui uma natureza que é, eminentemente, missional. Ela, por isso, volta-se para o mundo e dialoga com ele. Busca ser compreendida e revelar Deus às nações, bem como ser bênção na realidade onde está inserida. Percebemos, ainda, que essa perspectiva está revelada desde a história de Israel, a qual tem seu início no chamado de Abraão. Não há dúvida, Deus é missionário e deseja que seu povo também o seja. Estar em missão, enfim, é ser igreja.

É interessante observar, porém, que a tarefa missionária tem em Jesus o modelo por excelência: “Assim como o Pai me enviou, eu os envio”. O anúncio do Reino de Deus se deu através da encarnação. Jesus assume a história do seu povo tornando-se “Deus conosco” e habitando “entre nós, cheio de graça e verdade” (Jo 1.14). Esse texto nos remete diretamente a necessidade de contextualização. A encarnação, aqui, revela Deus de forma compreensível entre as pessoas de uma determinada cultura – no caso, o povo de Israel. Assim, na pessoa de Jesus, Deus se fez presente entre nós e viveu seu contexto histórico, social, econômico, político e religioso. Jesus, portanto, conhecia a realidade onde estava inserido e agiu integrando essa realidade com a vontade de Deus. O Deus-homem, assim, assumiu a condição humana e cultural em sua totalidade. Para o povo de Deus, o qual é enviado como Jesus, isso significa “nascer de novo” em cada contexto específico.

E como a igreja pode nascer de novo em sua localidade? A exemplo de Jesus que se fez aprendiz durante trinta anos no povo judeu antes de se revelar como Filho de Deus, a igreja deve compreender os usos, costumes, valores e cosmovisão da comunidade onde está inserida. Apenas dessa forma poderá comunicar a mensagem do evangelho com fidelidade e clareza. Ela deve, portanto, aprender a pensar como as pessoas não-crentes pensam e a viver como elas vivem, evitando uma grande disparidade entre estilos de vida. Ser enviado como Jesus implica em valorização da “cultura do outro” e em aprender a colocar a “cultura da igreja” em segundo plano, visto ser ela confortável apenas para quem já é crente. Na prática, significa que a igreja precisa rever sua cultura eclesiástica: identificar o que é expressão cultural oriunda de sua tradição histórica e buscar uma relevância contemporânea e local. Isso não significa abandonar o conteúdo e os valores do evangelho, mas apenas ajustar a forma de expressá-lo. O desafio é estar no mundo sem ser do mundo (Jo 17.15-18).

Nessa perspectiva, é possível encontrar na Bíblia vários exemplos onde Jesus se comunica a partir de sua realidade: Mt 4.19 – pesca para pescadores; Mc 4.1-20 – semeador para agricultores; Jo 15.1-6 – videira para produtores de vinho; Jo 10.1-18 – ovelhas para pastores; Mt 22.15-22 – moeda para homens que entendiam de tributos. O mesmo pode ser observado em relação aos apóstolos: At 10.9-16 – Pedro e o centurião Cornélio; At 17.15-31 – discurso de Paulo para os religiosos em Atenas; Gl 2.7-8 – Pedro era apóstolo da circuncisão e Paulo da incircuncisão; I Co 9.19-22 – Paulo se faz de tudo para com todos, a fim de salvar alguns.

Entretanto, apesar dos exemplos bíblicos, Jesus não deixou simples receitas, fórmulas ou métodos para seus seguidores. Na verdade, ele é o modelo de identificação total que precisamos observar. Ele nos mostra como devemos traduzir a mensagem do evangelho em relacionamentos amorosos e ações sociais que refletem a atitude de serviço e solidariedade.

A igreja CHAMADA PARA FORA, assim, enfrenta o desafio de comunicar o evangelho dentro do seu contexto. No caso da realidade brasileira, significa lidar com a violência generalizada, o uso de drogas, a má distribuição de renda, a impunidade, a sensualidade, o individualismo e a superficialidade espiritual. A pergunta que surge é: como podemos encontrar as pessoas em situações concretas, compreender suas questões e, ao mesmo tempo, desenvolver um estilo de vida “encarnacional”?

Diálogo com a cultura

Dialogar com a cultura sempre foi e sempre será um desafio do povo de Deus. Isso ocorre desde os tempos de Israel, quando ele deveria viver sua fé em meio às nações pagãs de modo a glorificar a Deus. Nesse sentido, embora houvesse a exigência da adoração exclusiva a Deus revelado por Moisés, o povo judeu também foi influenciado pelas nações vizinhas. Esse é o caso, por exemplo, de muitas composições de salmos e provérbios (Sl 11, 29 e 45 são de origem cananéia e adaptados para o uso israelita; Pv 22.17-23.11 é baseado nas Máximas de Amenemope; entre outros). As semelhanças com a literatura considerada pagã, então, podem nos mostrar que os louvores, orações e ditos de sabedoria tomavam uma forma facilmente compreendida pelos povos vizinhos de Israel e direcionava o louvor universal a Deus. Isso aponta para o fato de que o diálogo cultural sempre foi possível.

Outro olhar para o Antigo Testamento também mostra essa possibilidade. Embora Gênesis 3 registre a queda da humanidade e Gênesis 4 o assassinato de Abel pelas mãos de Caim, são os descendentes deste que são apresentados como inovadores da cultura, erguendo cidades, criando animais para seu sustento, produzindo instrumentos musicais e ferramentas de metal (Gn 4.17-22). Assim, apesar da condição de criaturas decaídas, é possível ver positivamente os sucessos de suas realizações culturais humanas.

Pode-se observar, ainda, no Novo Testamento, o olhar positivo de Paulo em relação à cultura. Percebe-se que ele sabia que os valores de cada cultura eram diferentes e que alguns costumes eram relativos e outros não: “...tornei-me judeus para os judeus, a fim de ganhar os judeus... para os que estão sem lei, tornei-me como sem lei, a fim de ganhar os que não tem lei...” (I Co 9.19-23). Nessa perspectiva, ele exigiu que Timóteo se circuncidasse (At 16.3) e deixou Tito sem circuncisão (Gl 2.3). Não foi incoerência na conduta do apóstolo, mas um reconhecimento bíblico de que há níveis de valores de uma cultura para outra e mesmo dentro de uma cultura.

Por outro lado, é importante questionar a cultura onde se está inserido. Paulo nos chama a atenção em Rm 12.2 para não tomarmos a forma desse mundo, mas sermos transformados pela renovação da mente. Ou seja, temos que ter a “mente de Cristo” (Fl 2.5). Isso também é encarnação. A nossa postura profética, então, deve estar presente tanto nas questões sociais como nas questões éticas e morais. A indiferença em relação aos problemas sociais, bem como o individualismo, a ganância e o consumismo, devem ser questionados pelos cristãos e não assimilados. Nesse ponto, o diálogo cultural deve permitir a transmissão da mensagem do evangelho com clareza, mesmo que ela seja rejeitada pela sociedade. É o que Tim Keller fala sobre a contextualização: “contextualização não é dar às pessoas o que elas querem ouvir, mas sim dar as respostas de Deus (as quais elas podem não querer) para as perguntas que elas estão fazendo e de uma forma que elas possam compreender”.

De acordo com o exposto, podemos perceber que nenhuma cultura é necessariamente boa ou má. Nesse sentido, nenhuma se ajusta totalmente ao propósito de Deus, tendo sempre elementos desfavoráveis à compreensão e aos valores do Evangelho. Por isso, o evangelho nunca se identifica totalmente em uma cultura em particular. Por outro lado, toda cultura possui aspectos favoráveis à compreensão e aos valores do evangelho, sendo um canal de comunicação entre Deus e o ser humano.

Vistas nesta perspectiva, as diferenças culturais que, muitas vezes são obstáculos à comunicação, tornam-se uma vantagem para a compreensão da multiforme sabedoria de Deus. Como exemplo, podemos citar o chimarrão dos gaúchos como expressão de amizade e relacionamento; também, muitas músicas trazem apelos de amor, valorização da mulher e justiça social; ainda, percebemos o cuidado com a Terra em movimentos e organizações da sociedade, o qual expressa a responsabilidade dos cristãos em cuidar da criação. Enfim, são infinitas as possibilidades.

Por outro lado, embora a forma de comunicação do evangelho deva ser flexibilizada a fim de encontrar pontos de contato com a cultura, o conteúdo é inegociável. Ao mesmo tempo, então, que a igreja enviada como Jesus procura se identificar com a cultura, deve ter uma postura profética e confrontar o que afasta a humanidade da imagem e semelhança de Deus. Isso quer dizer que o pecado pode ser encontrado nas entrelinhas de muitas expressões culturais, as quais não estão ligadas apenas à forma (símbolos, palavras, rituais, etc), mas também ao estilo de vida.

Portanto, para ser uma igreja CHAMADA PARA FORA, a qual se importa com a relevância da sua comunicação, ela deve observar o paradigma da encarnação. E, da mesma maneira como Jesus fez (tornou-se ser humano sem deixar de ser Deus), a igreja deve procurar esvaziar-se de tudo, exceto de sua integridade pessoal para cumprir seu chamado.

Implicações para a igreja local

Existem muitas implicações da perspectiva da encarnação para a igreja local. Vamos destacar apenas algumas delas. Assim, pelo fato de Jesus viver sua realidade local e se revelar a partir dela, a primeira implicação é que a igreja precisa se entender, verdadeiramente, como uma comunidade local. Então, ela precisa se decidir pelo bairro ou região no qual deseja influenciar e pelo público que deseja alcançar, pois aí está o seu verdadeiro campo missionário. A igreja precisa se preocupar com as pessoas de sua vizinhança imediata, conhecer suas necessidades e anseios, para então servi-las de maneira adequada. Então, a comunidade de discípulos deve apresentar a Deus a realidade observada e buscar o discernimento de sua atuação. Nesse sentido, é imprescindível a percepção de que a direção e a capacitação vêm de Deus: “Mas receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês e serão minhas testemunhas” (At 1.8). Aqui fica claro que a experiência do Espírito Santo é que leva à atividade missionária.

Outra implicação prática para a igreja é a necessidade de ser feita uma “exegese cultural” onde ela está inserida. Deus conhecia perfeitamente onde estava se “encarnando”. Isso significa que a comunidade local precisa conhecer o que as pessoas têm, fazem, pensam e creem. Ela precisa dialogar com o contexto histórico, social e cultural, entende-lo e interpretá-lo. Hoje existem muitas ferramentas (extraídas principalmente das ciências sociais) que podem auxiliar nessa tarefa. Mas existem três perguntas básicas a serem feitas: Quem somos? Onde estamos? O que Deus quer fazer do que somos, onde estamos?

Assim, “Quem somos” se refere aos dons espirituais, competências e potencialidades dos participantes da igreja; envolve atividade profissional, nível de escolaridade, estrutura familiar, experiências de vida, classe social, etc. “Onde estamos” está ligada à questões geográficas, históricas e culturais da região a ser alcançada: características urbanas , índice populacional, escolaridade, renda, níveis de segurança, opções de entretenimento, predominância religiosa, etc. A terceira pergunta, “O que Deus quer fazer do que somos, onde estamos” é que nos levará a trabalhar com um projeto específico na comunidade. Devemos nos perguntar, com base em quem somos e onde estamos, quais as maiores oportunidade para a entrada do evangelho.  Entretanto, isso apenas pode ser respondido mediado pela oração, pois ouvir Deus é o que conduzirá a comunidade na dependência do Espírito Santo.

Percebe-se, então, que ser CHAMADO PARA FORA não implica em fazer o trabalho de qualquer jeito, sem planejamento e sem organização. Em geral, no Brasil, vivemos parte de nossa história fazendo tudo por intuição: para desenvolver nosso chamado somos guiados pelo “Deus me falou”, desmerecendo conhecimentos especializados. Embora a intuição no Espírito Santo seja importante em todo o processo, o uso de critérios analíticos deve ser amplamente valorizado. Então, devemos nos valer de nossos dons e de nossa capacidade de trabalho criativo para adquirir as informações necessárias, a fim de formar uma igreja relevante dentro da realidade local.

Ainda dentro da “exegese cultural”, é importante perceber a influência do pensamento pós-moderno na vida das pessoas. Embora o tema da pós-modernidade seja complexo, vale destacar algumas de suas características: moralidade relativa, relações virtuais (TV e redes sociais), família mosaico, espiritualidade pluralista, excesso de informação, avesso ao que é institucional, influência da globalização e da consciência ecológica. Assim, o desafio da igreja é viver nesse contexto de maneira que seja íntegra e relevante. O objetivo é levar as pessoas a serem discípulas de Jesus: “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações... ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei...” (Mt 28.19-20).

Infelizmente, a mente do cristão contemporâneo tem sido muitas vezes moldada pela pós-modernidade. O seu comportamento, como já temos apontado, parece ser mais influenciado pela propaganda, pelos apelos da moda e pela moral das novelas do que pela encarnação de Cristo. Nesse sentido, enquanto cria uma “cultura eclesiástica” própria, a igreja permite ser influenciada pelo mundo. Isso requer, sem dúvida, um diálogo cultural sério, onde o discernimento e a obediência a Cristo sejam critérios do processo.

Essa questão do estilo de vida nos leva, ainda, a perceber que a encarnação de Jesus molda inclusive a evangelização. Para muitos, a sua ênfase está na dimensão espiritual. Ser cristão implica apenas em “aceitar” a Cristo, confessar doutrinas e assimilar valores religiosos. A salvação é vista de forma espiritualizada e individualista. A encarnação, ao contrário, promove uma mudança na vida das pessoas, bem como na sociedade onde ela vive. O desejo deve ser o de “buscar em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça” (Mt 6.23).

Uma última implicação a ser destacada é a necessidade da igreja local se descobrir como uma comunidade missional: ter a mesma natureza do Deus que se encarnou e que envia os seus discípulos. Ela deve, assim, ser uma comunidade de discípulos de Jesus, engajados na missão de fazer novos discípulos no mundo. Ela, para isso, se empenha em romper com as barreiras culturais, a fim de tornar o evangelho ouvido, compreendido e acolhido.

Dessa forma, uma igreja missional se caracteriza por ser “missionária pela sua própria natureza”, a qual busca, em toda sua estrutura, viver o seu chamado e o seu envio. Nesse sentido, o culto deve ser voltado para os de fora (com formatos e temas relevantes para as questões locais), dando oportunidade a todos os que não conhecem a Cristo de se encontrar com ele: podemos dizer que o culto não é apenas um momento para adorar a Deus (no sentido de ser um ambiente para crentes expressarem o seu louvor), mas uma oportunidade de Deus ser adorado por todos os povos.

A membresia, também, adquire sentido encarnacional e missional: os membros não são clientes de um clube de serviços, mas discípulos de Cristo em missão no mundo. Eles são estimulados à maturidade e equipados para servirem no contexto local. Assim, a visão da cultura não é simplesmente negativa ou positiva; a igreja se relaciona de forma crítica em relação a ela, enxergando tanto armadilhas como oportunidades.

Como primeira consequência da redescoberta da natureza missional da igreja, tem-se a revitalização: a comunidade de discípulos torna-se dinâmica e relevante onde vive, ao mesmo tempo em que comprometida com os valores do evangelho. A outra consequência inevitável desse processo é a plantação de novas igrejas. Uma comunidade inserida em uma perspectiva missional jamais se contentará em alcançar um grupo específico de pessoas. Ao contrário, ela se engajará em um trabalho efetivo de plantação de novas comunidades missionais, as quais nascem motivadas pela sua própria essência de ser igreja em missão no mundo.

Finalmente...

Uma conclusão óbvia de tudo que foi exposto é que a igreja precisa, como Jesus, “encarnar-se”. Essa encarnação, porém, pressupõe que ela se veja como “enviada” e, numa ação centrífuga, CHAMADA PARA FORA. Assim, uma igreja “encarnada” vive uma estrutura de ida, não de vinda. Ela dirige-se às pessoas, em vez de esperar que as pessoas venham a ela. Nesse interim, a igreja “encarnada” tem uma mensagem divina para o mundo: ela anuncia o evangelho em um contexto, embora tenha uma mensagem própria. Os meios para a comunicação decorrem da própria cultura; a igreja não é estranha no seu mundo. Por outro lado, ela interfere em seu meio e transforma a realidade vigente espelhada no reino de Deus. O evangelho, assim, também se torna “encarnado”.

Que Deus nos ajude a ser uma comunidade local CHAMADA PARA FORA que experimenta em, todas as dimensões, a realidade missional.


O desafio, portanto, está lançado!


quinta-feira, 10 de março de 2016

Igreja: chamados para fora - parte 2/3

Eclesiologia missional

IGREJA: CHAMADOS PARA FORA

2. Olhando de trás para frente...

O Eterno disse a Abrão:

“Deixe sua terra, sua família e a casa de seu pai e vá para uma terra que eu mostrarei a você. Farei de você uma grande nação e o abençoarei. Tornarei você famoso; você será uma bênção. Abençoarei os que o abençoarem e amaldiçoarei os que o amaldiçoarem. Todas as famílias da terra serão abençoadas por seu intermédio.”.

Como vimos no estudo anterior, somos igreja CHAMADA PARA FORA pela nossa própria natureza. Percebemos essa realidade brotar do próprio significado da palavra “igreja” (ekklesia = ek + kaleo = chamado para fora). Mas, também, observamos esse chamado exposto no Novo Testamento quando consideramos a igreja como uma comunidade que se reúne como povo de Deus. Como Seu povo, somos expressão de Sua natureza e de Sua missão: levar o mundo a se reconciliar com Deus e o seu reino. Nesse sentido, somos comunidade missional (missionária por natureza), a qual se volta intencionalmente para o mundo e dialoga com ele de maneira contextualizada.

A intensão agora, a partir de Abraão, é verificar a natureza missionária da igreja como eco do chamamento divino desde os primórdios da revelação bíblica. Isso quer dizer que a ação de Deus em direção a humanidade não inicia no Novo Testamento. Ele está, na verdade, exposto por toda a Bíblia. O teólogo holandês J. Bavinck já observou em Gn 1.1 (“No princípio Deus criou os céus e a terra”) a base da Grande Comissão de Mt 28.18-20. Isso significa que já no primeiro versículo da Bíblia percebemos a preocupação de Deus com o mundo inteiro. Infelizmente, uma parte do mundo criado (o ser humano) se afastou do seu Criador, a ponto de afetar toda a criação. Deus, então, estabelece um plano de reconciliação e restauração, o qual inclui um povo específico.

É importante destacar, nesse contexto, que desde o primeiro versículo da Bíblia Deus se coloca como o Deus do Universo, não apenas de um povo. Ele é Senhor de tudo e todos, não apenas de uma comunidade de prediletos. Essa situação, entretanto, não faz Deus trabalhar sozinho para cumprir seu propósito. E assim como Deus tem escolhido os discípulos de Jesus para serem seus agentes missionais, ele escolheu Israel para comunicar a mensagem de reconciliação a todos os povos. E o seu ponto de partida, seu start, foi o chamado de Abraão. No começo “Abrão”; no estabelecimento da aliança (Gn 17), “Abraão”.

Mas, antes de analisar a história de Abraão e o seu chamado, é importante observar o que Johannes Blauw denomina “pré-história” de Israel. Ou seja, os 11 primeiros capítulos da Bíblia. Nessa narrativa, percebe-se a tensa relação de Deus com a humanidade.

Como isso se deu? De maneira resumida, pode-se dizer que no princípio toda a criação teve o eixo central no homem. Mas ele usa mal essa centralidade, não compreende seu papel como responsável pela criação e acaba afastando-se do Criador (criação e queda em Gn 1-3). Inicia-se, então, um estado de alienação culposa de Deus, o qual atinge toda a criação (a maldição da terra e a corrupção da humanidade em Gn 4-6) e culmina em severo juízo (dilúvio de Gn 7 e 8). Apesar disso, Deus permanece fiel à sua criação e ao ser humano (aliança com Noé em Gn 9). Surge, então, uma nova geração (Gn 10) que também se afasta de Deus (a torre de Babel em Gn 11) e termina sendo dispersa por toda a terra (Gn 11.8).

Agora sim é que podemos olhar para o chamado de Abraão. Nesse contexto de afastamento de Deus e dispersão das nações é que foi dito “Deixe sua terra, sua família e a casa de seu pai e vá para uma terra que eu mostrarei a você”. A partir daí, a relação de Deus com os povos mundo começa a se dar de modo particular através de um povo específico. Na verdade, apenas é possível entender Gn 12.1-3 como uma resposta de Deus ao problema da humanidade, exposto em Gn1-11. Assim, com um propósito claro, Abraão é chamado e enviado. Nesse sentido, podemos dizer que, da mesma forma que aconteceu com a igreja no Novo Testamento, Abraão foi CHAMADO PARA FORA.

É interessante observar, ainda, o contraste de estilo literário entre Gn 11 e 12, o qual marca o propósito específico do chamado de Abraão:
·  “Assim nosso nome será famoso” (11.4b) e “tornarei famoso o teu nome” (12.2b).
·  “O Senhor os dispersou dali por toda a terra” (11.8) e “farei de você um grande povo” (12.2).
·  “Para que não entendam mais uns aos outros” - prenúncio de uma maldição sobre a arrogância (11.7) e “em ti serão benditas todas as famílias da terra” (12.3).

Podemos perceber, nesse contraste, a arrogância humana universal e a graça de Deus canalizada através de um povo em particular. Gn 12, portanto, mostra a ação intencional da parte de Deus em resposta à rebeldia e à independência da humanidade, o que a leva à autodestruição certa. Além disso, podemos perceber sua ação graciosa, pois Deus continua se preocupando com toda a humanidade, mesmo diante de seu estado moral e espiritual corrompido. A graça de Deus pode, ainda, ser notada na própria escolha de Abraão, visto ser ele oriundo do povo da dispersão de Babel (Gn 11.31) e adorador de outros deuses (Js 24.2).

A Eleição

A escolha de Abraão... Quando analisamos o chamado de Abraão é inevitável, também, nos depararmos com o tema da eleição. Sem dúvida, eleição é um dos temas preferidos entre os presbiterianos. Com a ênfase na soberania divina, temos refrigério na máxima calvinista: “O cristão escolhido não pode rejeitar sua eleição, pois Deus há de curvá-lo até que ele aceite a Sua graça”. No entanto, a perspectiva da eleição tem, muitas vezes, tornado o povo de Deus passivo em relação a sua natureza missionária. É comum ouvirmos frases do tipo: “Se é Deus quem salva e se Ele já tem seus escolhidos, não preciso me preocupar com os não-salvos!”. Isso não apenas está em desacordo com as Escrituras como com o próprio sentido do povo de Deus existir.

Ao observarmos, no entanto, a eleição em Abraão e na história de Israel, veremos o quanto ela tem de sentido missional. A afirmação de Gn 12.3, “Todas as famílias da terra serão abençoadas por seu intermédio”, indica que Abraão e seus descendentes atrairão a atenção das nações e as tornarão ansiosas por partilhar das suas bênçãos. O ato da eleição de Abraão e de Israel coincide com a promessa (ou a perspectiva) de “bênção para as nações”. A eleição, assim, é “eleição para o serviço”. Esse é o seu propósito, o seu fim. Quando o serviço é recusado, a eleição perde seu sentido. Pode-se observar a semelhança com Ef 2.10: “Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou de antemão para nós as praticarmos.”.

Seguindo essa percepção, pode-se dizer que a eleição separa Israel das nações para que ele possa servir a Deus e trazer todo o mundo até Ele. A eleição, assim, não tem nenhum propósito em si mesmo. Não somo eleitos e ponto final. Somos eleitos para alguma coisa. Israel, então, não é o objeto da eleição divina, mas o sujeito do serviço exigido por Deus. O serviço não existe por causa da eleição; a eleição existe por causa do serviço. Da mesma forma podemos dizer que não existe missão por causa do povo de Deus (ou da igreja), mas “povo de Deus” e “igreja” por causa da missão.

A passagem de Ex 19.5-6 ajuda a tornar clara essa perspectiva: “...se me obedecerem fielmente ...vocês serão o meu tesouro pessoal dentre todas as nações. Embora toda a terra seja minha, vocês serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa...”. Isso não quer dizer que haverá somente sacerdotes em Israel, mas que Israel cumprirá função sacerdotal como um povo no meio dos povos. Ele representará Deus no mundo das nações; levará todos os povos à presença de Deus. O que os sacerdotes são especificamente para o povo de Israel, Israel será para o mundo. A expressão “nação santa” nesse versículo indica o mesmo: aponta para a relação com Deus como um povo consagrado (ou separado) para um serviço especial. 1Pe 2.9, ainda, relaciona essa realidade com a igreja: “Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus, para anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.”

Chamado missional

É evidente até aqui que Deus não escolheu e chamou Abraão à toa, mas para um serviço em seu nome. Assim, ainda que Deus tenha como alvo alcançar o mundo inteiro, a partir de Gn 12 é possível perceber a sua relação especial com um povo específico. Eis aí um chamado missional: ser escolhido, separado e preparado com o propósito de se juntar à missão de Deus em direção ao mundo.

Dessa forma, o chamado missional de Abraão (e, implicitamente, de Israel) começa quando Deus diz: “Deixe sua terra, sua família e a casa de seu pai e para uma terra que eu mostrarei a você.”. A esse chamado é vinculada uma preciosa promessa: “todas as famílias da terra serão abençoadas por seu intermédio.”. É importante perceber, porém, dois imperativos dados a Abraão para vincular o chamado à promessa: primeiro de ser uma bênção (“...o abençoarei”; “...você será uma bênção”), e, segundo, de abençoar os povos do mundo (“...serão abençoadas por seu intermédio”). Aqui podemos notar o caráter explicitamente missional do chamado: Deus abençoa Abraão com o propósito de ele ser uma bênção, com o propósito de que sejam abençoados todos os povos do mundo. Abraão, sem dúvida, foi CHAMADO PARA FORA!

O envio do povo de Deus ao mundo, portanto, representa sua natureza, a qual sempre foi e sempre será missional. Por essa razão, a eleição e o chamado não constituem apenas privilégio, mas essencialmente responsabilidade. É privilégio apenas enquanto o povo é chamado de forma intencional e graciosa, mas passa a ser responsabilidade quando o mesmo povo é chamado para ser bênção a todos os povos da terra.

Nesse sentido, podemos encontrar no Antigo Testamento muitas pistas que nos levam a perceber as maneiras do povo de Deus ser bênção para às nações. Com certeza, os atos de Deus em favor do seu povo (Js 4.24) e a perspectiva de uma adoração que incluísse outros povos (Sl 66.5) contribuíram (e contribuem!) para revelar Deus. Mas, na perspectiva missional, é importante destacar uma maneira: o estilo de vida. Isso quer dizer que quando o povo de Deus segue as orientações divinas, os outros povos são atraídos a Ele. Ou seja, quando há justiça social, prosperidade, paz, alegria, fé, etc, no meio do povo de Deus, as nações glorificariam a Deus. Essa realidade fica bem clara em Dt 4.6-8: “ao obedecer e cumprir [os decretos de Deus] os outros povos verão a sabedoria e o discernimento de vocês... Que grande nação tem um Deus tão próximo?... Que grande nação tem decretos e preceitos tão justos...?”. É semelhante ao dito de Jesus em Mt 5.16: “Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês que está nos céus”. Deus chama, então, um povo específico para que ele seja obediente e leal, a fim de manifestar o caráter divino de compaixão e justiça em toda a terra e, assim, conclamar o mundo a glorificá-lo.

Diante desse quadro, é possível perceber que embora Israel não tivesse um propósito específico de ir a outros povos, seu chamado era o de viver de forma missional. Os povos seriam atraídos pelo que veriam em Israel. O CHAMADO PARA FORA persiste.

Infelizmente, ao longo da Bíblia, descobre-se que o povo de Deus acaba se caracterizando pela desobediência, a qual culmina em consequente juízo. Como diz Ez 36.22-23: “...meu nome foi profanado entre as nações”. E em Am 8.2: “Chegou o fim de Israel, o meu povo; não mais o pouparei”. Resta, pela graça, o cumprimento das promessas a partir de um descendente real, o próprio Jesus Cristo. Através dele e por ação, ainda, do seu povo (a igreja) é que a bênção de Deus alcançará todas as famílias da terra.

Implicações para a comunidade local

São muitas as implicações do chamado de Abraão para a comunidade local. Assim como Deus se autorevela, ele chama o seu povo para agir em nome dele. Assim como Deus ama todas as nações, ele chama o seu povo para amá-las. Portanto, a primeira implicação do chamado de Abraão para a comunidade local é ela aceitar o chamado missional da parte de Deus e buscar ser uma igreja verdadeiramente voltada para os de fora. Não cabe mais, nessa perspectiva, satisfazer o conforto particular. A autossatisfação se caracteriza por ser um fim em si mesmo e não representa o chamado de Deus. Na verdade, expressa a cultura de consumo que estamos acostumados a ver na sociedade atual. Nossa tendência é tratar a igreja como uma pequena empresa orientada por resultados, onde o pastor é o gerente executivo e os membros os clientes. A exigência dos clientes é que lhe seja prestado um bom serviço e o papel da liderança é fazer com que eles fiquem satisfeitos. Muitas vezes, quando nos reunimos, nossa preocupação é se a mensagem, a música e o trabalho com as crianças foram satisfatórios para nós, se atenderam a nossa expectativa. Se não foram suficientes, começamos a pensar em outra comunidade.  Não há nada de missional nisso. Não tem nada a ver com o chamado de Deus para reconciliar e restaurar o mundo.

Ser uma igreja que responde ao chamado missional, portanto, implica em rever a maneira de ser igreja. Isso significa, por exemplo, evitar a criação de uma subcultura evangélica: parece existir um padrão em termos de vocabulário próprio quando se está entre pessoas da comunidade evangélica (o “crentês), bem como aspectos dos ritos ou elementos litúrgicos que causam estranheza ao público de fora (estilo de música e manifestações próprias em relação a elas, “senta e levanta” dos bancos, forma de exposição da mensagem, etc). Isso tem a ver com a nossa preferência pessoal, não com a revelação bíblica; tem a ver com a nossa cultura, não com a fidelidade a Deus. Temos, então, que zelar para que o nosso estilo particular não se torne barreira para a mensagem de Deus às nações.

Outra implicação do chamado missional observado em Abraão é que, assim como Deus, a igreja deve agir com intencionalidade e graça para com os de fora. Isto significa querer manifestar a glória de Deus para quem está afastado dela, independente de quem seja ou em que estado moral se encontre. Somos muito rápidos para julgar alguém pelos seus pecados e nos afastar dele. Nossa disciplina é impiedosa, ao ponto de nos colocarmos no lugar de Deus para fazermos aquilo que Deus jamais faria. Nesse caso, não agimos nem com intensão e nem com graça. “Mas Deus mostra o seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores” (Rm 5.8).

Portanto, o nosso chamado inclui tomar a iniciativa para, com criatividade, comunicar a mensagem da reconciliação para todas as pessoas. Nesse sentido, devemos praticar o evangelismo “relacional-intencional”. Isso quer dizer que devemos ser amigos de não-crentes, mesmo daqueles que sejam diferentes nós: o jardineiro, o zelador, o empresário, o médico ou qualquer outro. É através dos nossos relacionamentos que podemos levá-los ao encontro de Deus. Não quer dizer, porém, ser falso ou perder a integridade. Embora não seja íntegro se relacionar com alguém apenas para convertê-lo em determinado tempo, é íntegro querer que as pessoas com as quais você se relaciona se convertam, bem como é íntegro estabelecer relacionamentos com a intensão de converter as pessoas.

O exemplo de Abraão também nos leva a pensar em como ser bênção para os outros povos, no sentido de viver de maneira que atraia outras pessoas a Deus. O estilo de vida é, realmente, um desafio para a igreja nos dias de hoje. Até porque a sua imagem se constitui em uma barreira para a mensagem da reconciliação. É comum conhecermos um amigo ou vizinho crente que não apresenta um comportamento adequado, contribuindo para a imagem negativa da igreja. A mídia, da mesma forma, não ajuda em tornar melhor a imagem dos cristãos: ela apresenta reuniões repletas de emocionalismos e manipulações financeiras, além de escândalos éticos e morais por parte de líderes. Nós mesmos, constantemente, fazemos coisas das quais nos arrependemos.

É preciso, portanto, em primeiro lugar, compreender que o povo de Deus não é um grupo de pessoas perfeitas. Ele é, antes, um grupo de agraciados, limitados e falhos, que buscam ser restaurados através do amor incondicional de Deus. E, em segundo lugar, é imprescindível que a igreja busque um processo de formação espiritual sério e permanente. O grande alvo da comunidade de Deus é ser parecida com Cristo: “Pois aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.” (Rm 8.29). Nada menos do que isso deve nos interessar. Felizmente, isso é obra do Espírito, mediante muita graça e amor.

Finalmente...

Para concluir nosso estudo, é importante lembrar que Deus revela sua disposição em se reconciliar com mundo desde o livro de Gênesis. Ele elege e chama Abraão para ser canal de bênção às nações, a fim de passar essa incumbência a todo o povo de Deus, em todas as épocas. Nosso desafio como povo de Deus do século XXI é, portanto, viver de maneira missional de forma que Deus seja glorificado pelo mundo inteiro, a fim de fazer jus a nossa vocação.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Igreja: chamados para fora - parte 1/3

Eclesiologia Missional

IGREJA: CHAMADOS PARA FORA

1. Olhando de dentro para fora

 Quando chegou às vilas de Cesaréia de Felipe, Jesus perguntou aos discípulos: o que o povo anda dizendo a respeito do Filho do Homem? Eles responderam: “Alguns pensam que é João, o Batista. Outros acham que é Elias. Há quem pense que é Jeremias ou algum dos profetas”. Ele insistiu: “E vocês? Quem acham que eu sou?”. Simão Pedro declarou: “Tu és o Cristo, o Messias, o Filho do Deus vivo!” Jesus afirmou: “Deus o abençoe Simão, filho de Jonas! Você não retirou a resposta dos livros, nem citou algum professor. Meu Pai no céu, o próprio Deus, revelou a você o segredo sobre quem sou de fato. Agora vou dizer quem você é de verdade. Você é Pedro, uma pedra. Essa é a pedra sobre a qual vou edificar minha igreja, uma igreja tão exuberante e tão cheia de energia que nem as portas do inferno serão capazes de obstruir o seu avanço.” (Mt 16.13-18 - Bíblia Mensagem).

Não há nada mais relevante, na atualidade, do que analisar a igreja revelada por Deus ao longo da Bíblia. Isso porque hoje estamos, como comunidade de discípulos de Jesus, em um momento crítico na história. Embora o crescimento numérico do cristianismo seja uma realidade, os valores cristãos impressos na sociedade e na própria igreja deixam muito a desejar. Nesse sentido, é interessante observar um número crescente de pessoas sem igreja (aqueles que se dizem cristãos, mas não participam de uma comunidade) e a popularização de uma religiosidade “evangélica” ligada a dinheiro, a charlatanice e a uma relação com Deus baseada em troca e beneficios pessoais. Isso tem apontado para uma geração que não conhecerá a Deus como o revelado pelas Escrituras ou, talvez, nem mesmo chegue a conhecer a Deus. Algo parecido tem acontecido nos Estados Unidos: segundo estatísticas, a geração de 60 anos ainda vai à igreja; a de 40 anos conhece a igreja, mas não participa dela; e a de 20 anos praticamente não a conhece.

Uma revelação importante em relação à comunidade evangélica, entretanto, diz respeito aos seus indicadores éticos e morais. No livro intitulado O escândalo do comportamento evangélico, Ronald Sider traz uma estatística bastante dsconfortável sobre aqueles que afirmam terem nascido de novo, participam regularmente de suas igrejas, professam sua fé em Cristo e estão, de alguma forma, envolvidos nas atividades e programas de suas igrejas: o índice de divórcio, adultério, pornografia, racismo, abusos e violência doméstica de adultos, além da atividade sexual fora do casamento e de DSTs entre jovens e adolescentes, é praticamente o mesmo entre cristãos e não cristãos. Também, o percentual de ofertas na igreja caiu na mesma proporção que a renda per capita aumentou (reflete o espírito materialista e consumista da sociedade atual). O que nos assusta como brasileiros é que se essa estatística fosse feita aqui, provavelmente os índices seriam piores, pois somos uma igreja mais jovem, em uma cultura erotizada e tolerantes com a mentira, a corrupção e as imoralidades. Mas a pesquisa apontou, ainda, um dado mais alarmante: apenas 11% dos cristãos interpretam a realidade, a cultura, o mundo o trabalho, as relações, a sexualidade, etc, a partir de um fundamento bíblico e de uma ótica cristã. Realmente, diante disso não fica difícil entender porque o testemunho ético e moral de cristãos e não cristãos são tão próximos.

A essa realidade é imprecindível uma pergunta: O que nós, como igreja crente na promessa de Jesus de que “nem as portas do inferno serão capazes de obstruir o seu avanço”, vamos fazer?

Para muitos estudiosos, a resposta está na persistência: “─ Se insistirmos com fidelidade, Deus honrará sua promessa!”. Para outros, temos que passar por um programa de remodelação da igreja, a fim de comunicar o evangelho de forma que tenha sentido na contemporaneidade e seja atrativa para os de fora. Outra opção seria investir em um processo agressivo de plantação de igrejas, realocando nossas forças para novas estruturas e linguagens, com o objetivo de sermos relevante na sociedade e experimentarmos a nova vida do evangelho.

Creio, como alguém que vive missões e tem dedicado a sua vida em contribuir para o estabelecimeno do reino de Deus no mundo, que a maneira de modificar o quadro cristão atual passa pelas três alternativas propostas, mas essencialmente, deve ir além delas. Parece que o cerne do problema não é metodológico, mas teológico. Embora não questionar a atual conjuntura da igreja seja fatal para sua sobrevivência, a simples modificação da forma da mensagem, das técnicas ou das estruturas não impedirá a reprodução dos mesmos modelos que culminaram na realidade atual. A questão não é simplesmente “avançar sobre o inferno”, mas, verdadeiramente, tornar-se uma igreja que vive a declaração: “Tu és o Cristo, o Messias, o Filho do Deus vivo!”. Esse é o ponto central da passagem bíblica; é essa declaração que identifica a pedra sobre a qual a igreja é edificada. Assim, quando a igreja vive sua profissão de fé, ela torna-se o que foi criada para ser, pois o próprio Cristo a estabelece e faz crescer: “Essa é a pedra sobre a qual vou edificar minha igreja”. Quando a igreja descobre e vive sua essência, “nem as portas do inferno serão capazes de obstruir o seu avanço.”.

É preciso, portanto, para ser fiel a Cristo, repensar não somente a apresentação externa da igreja, mas também sua natureza. O momento exige uma reflexão teológica sobre a real razão da existência da comunidade cristã. A pergunta que não quer calar é: O QUE É, AFINAL, SER IGREJA?

“...O que o povo anda dizendo a respeito do Filho do Homem?
...E vocês? Quem acham que eu sou?”.

Há um velho ditado popular que diz: vox popoli, vox Dei, ou seja, a voz do povo é a voz de Deus. Nada mais inverdade do que isso. Geralmente a sabedoria popular surge de experiências circunstanciais e subjetivas. Não reflete, assim, a revelação de Deus. Jesus, na passagem bíblica, compara a opinião pública com aquilo que ele tem ensinado aos seus discípulos. E os faz perceber a distância entre as duas perspectivas: uma coisa é o que o povo diz, outra é o que Deus sempre mostrou nas Escrituras e as pessoas não entenderam. Jesus, de certa forma, estimula os seus discípulos a repensarem suas bases teológicas.

Em relação ao conceito de igreja a situação parece não ser diferente. Geralmente a palavra igreja está associada a uma construção ou a uma organização religiosa mais ampla (Igreja Católica Romana, Igreja Presbiteriana, Igreja Batista). Mas, também, a igreja pode representar apenas um grupo reunido para adorar a Deus. Há muito, contudo, de sabedoria popular nessas perspectivas e há muito do que os próprios cristãos estão acostumados a pensar em relação a igreja, ao ponto de se acomodarem ao já pré-concebido. Na verdade, há muita coisa para aprender sobre o que é a igreja.

O Novo Testamento usa várias imagens para descrever a igreja: comunidade dos cristãos, povo de Deus, construção de Deus, lavoura de Deus, noiva do cordeiro, corpo de Cristo, entre outros. Para fins de compreender o papel da igreja no mundo onde ela está inserida, vamos destacar a figura da comunidade que se reúne como povo de Deus.

Nesse sentido, pode-se perceber que a palavra “igreja” se deriva do termo grego ekklesia = ek-kaleo, e significa “CHAMADOS PARA FORA”. Embora essa expressão na Grécia antiga tenha se referido à assembléia dos cidadãos com direito a voto, para os primeiros cristãos ela estava relacionada com a convocação (e reunião) do povo de Deus no Antigo Testamento para tomar decisões importantes em sua história (1Cr 28.8; 29.1,10,20). Sendo assim, como comunidade do povo de Deus, a igreja (ekklesia) não se reúne apenas para prestar culto. Ela decide sobre todas as áreas da vida humana. E por ser a comunidade de Deus, escolhida e sustentada por ele, a igreja apenas encontra justificativa para sua existência em Deus e na Sua missão de interferir no mundo. Aí, nesse momento, ela estabelece a relação da declaração de Pedro, “Tu és o Cristo, o Messias, o Filho do Deus vivo!” com a afirmação de Jesus, “Essa é a pedra sobre a qual vou edificar minha igreja”. Jesus, então, formará a sua comunidade quando ela se expressar como verdadeira seguidora-discípula e se juntar a ele em sua missão, vivendo o seu envio: “Assim como o Pai me enviou, eu envio vocês” (Jo. 20.21). Portanto, a igreja no Novo Testamento, assim como a igreja na atualidade, é um agente da missão de Deus no mundo. É “sal da terra e luz do mundo”. Deus envia sua igreja às nações para transformá-las em discípulas de Jesus (Mt 28.19-20).

O CHAMADO PARA FORA, por isso, não deve ser entendido como uma despedida do mundo. Trata-se muito mais de um chamado para se ocupar das tarefas da missão de Deus no mundo e para o mundo. A igreja é, enfim, CHAMADA PARA FORA, das trevas para a luz, onde não vive voltada para si mesma, mas para o serviço em prol de uma missão: “Vocês, porém, são... povo exclusivo de Deus, para anunciar as gradezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1Pe 2.9).

“Agora vou dizer quem você é de verdade...”
“...uma igreja tão exuberante e tão cheia de energia que nem as portas do inferno serão capazes de obstruir o seu avanço.”

A igreja, pelo exposto até aqui, pode ser entendida, então, como o braço missionário de Deus no mundo. Embora a missão sempre seja de Deus (missio Dei), Deus escolheu a igreja como agente do seu reino, como cooperadora em sua missão. Essa realidade tem sido chamada de “missional”, a qual significa nada mais nada menos do que “missionária por natureza”. É importante atentar para esse ajuste do termo “missionário”. Tradicionalmente, “missionário” é identificado com pessoas específicas, destinadas a uma tarefa específica, em um local específico. Ou seja, uma determinada comunidade ou uma denominação envia pessoas para a obra missionária em um determinado local. Isso faz da missão uma mera função da igreja e não sua natureza.

Ao usar a terminologia “missional”, pretende-se ressaltar a natureza da igreja como sendo missionária. Nesse sentido, toda a comunidade que se reúne como povo de Deus é CHAMADA PARA FORA e deve estar voltada para os de fora, a fim de cooperar na missão de Deus: “Deus se reconciliou com o Mundo por meio do Messias, permitindo um novo começo pela oferta de perdão dos pecados. Deus nos deu a tarefa de contar a todos o que ele está fazendo. Somos representantes de Cristo. Deus nos usa para persuadir homens e mulheres a deixar as diferenças de lado e ingressar na obra de Deus e para reconciliar o ser humano com ele.” (2Co 5.18-19). Nas palavras do pastor alemão Dietrich Bonhoeffer “a igreja só é igreja quando o é para os de fora”.

Sendo assim, nenhum aspecto da existência da igreja pode distanciá-la do contexto da missão de Deus no mundo. Não há área da comunidade centrada em si mesma, focada em suas necessidades. Não cabe, nessa realidade, um olhar para dentro e outro para fora: o que acontece dentro da igreja deve estar voltado, eminentemente, para fora, impulsionado pela missão e em direção ao mundo. Nesse sentido, Jesus disse: “Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do maligno. Eles não são mais orientados pelo mundo, assim como eu também não sou... Assim como me deste uma missão no mundo, eu dei a eles uma missão no mundo” (Jo 17.15-18 Bíblia Mensagem). Isso indica a natureza missional da igreja: no mundo, mas não do mundo; para o mundo, mas sem ser mundano; dedicada ao mundo, embora não dominada por ele; transformadora do mundo e não apenas sobrevivente a ele.

O estar no mundo, no entanto, ressalta outra característica missional: ser uma comunidade que dialoga com a cultura, fazendo-se presente em um determinado contexto. Ela é um grão que precisa germinar da terra. Necessita, então, se identificar com o seu meio e, ali, frutificar. À semelhança de Jesus que se fez humano, a comunidade de discípulos deve “encarnar-se” na cultura local (Fl 2.5-8). Perceba que voltar-se para o mundo e dialogar com o mundo são dois lados da mesma moeda. A perspectiva missionária, assim, nunca é impositiva de usos e constumes que a igreja tem adquiridos ao longo de sua história, mas aberta para abrir mão do que lhe é confortável, a fim de comunicar o evangelho todo, para todas as pessoas, de maneira que todos o compreendam.

Uma comunidade na perspectiva missional, portanto, é uma comunidade contextualizada. Segundo o pastor norte-americano Tim Keller, contextualização é dar as respostas de Deus para as perguntas que as pessoas estão fazendo e de uma forma que elas possam compreender. Isso significa que as pessoas poderão rejeitar a mensagem, pelo fato da resposta de Deus não ser exatamente aquilo que elas querem. Porém, a igreja cumprirá o seu papel em anunciar o evangelho com fidelidade e clareza.  Assim, cabe a nós, igreja em missão, começarmos a pensar a partir de três perguntas: 1)Quem nós somos? 2)Onde nós estamos? 3)O que Deus quer fazer com quem nós somos, onde nós estamos? Essa deve ser a nossa diretriz como comunidade CHAMADA PARA FORA. 

Veremos mais sobre isso nos encontros seguintes. Mas, sem dúvida, a partir dessa perspectiva, a igreja será capaz de tornar-se “tão exuberante e tão cheia de energia que nem as portas do inferno serão capazes de obstruir o seu avanço.”.

A águia e a galinha...

Há uma história antiga que expressa bem a nossa necessidade de ser aquilo que fomos chamados para ser... Essa história é a base do livro de Leonardo Boff, chamado “A águia e a galinha”.

“Era uma vez um camponês que foi a floresta vizinha apanhar um pássaro para mantê-lo em sua casa. Conseguiu pegar um filhote de águia. Coloco-o no galinheiro junto com as galinhas. Comia milho e ração própria para galinhas... Depois de cinco anos, este homem recebeu em sua casa a visita de um naturalista. Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturalista: - Esse pássaro aí não é galinha. É uma águia. - De fato – disse o camponês -, mas eu a criei como galinha. Agora, ela não é mais uma águia. Transformou-se em galinha como as outras. - Não – retrucou o naturalista. Ela é e será sempre uma águia. Pois tem um coração de águia. Este coração a fará um dia voar ás alturas. - Não, não – insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como águia.  Então decidiram fazer uma prova. O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e a soltou. Mas a águia pousou sobre o braço estendido do naturalista. Depois, olhando distraidamente ao redor, viu as galinhas ciscando grãos e pulou para junto delas. O camponês comentou:  - Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha!  - Não – tornou a insistir o naturalista. Ela é uma águia.  E uma águia será sempre uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã. No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no teto da casa. Sussurrou-lhe: - Águia, já que você é uma águia, abra as suas asas e voe!  Mas quando a águia viu lá embaixo as galinhas, ciscando o chão, pulou e foi para junto delas.  O camponês sorriu e voltou à carga: - Eu lhe havia dito, ela virou galinha!  - Não – respondeu firmemente o naturalista. Ela é águia, possuirá sempre um coração de águia. Vamos experimentar ainda uma ultima vez. Amanhã a farei voar. No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a águia, levaram para fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto de uma montanha. O sol nascente surgia nas montanhas. O naturalista, então, ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe: - Águia, já que você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, abra suas asas e voe!  A águia olhou ao redor. Tremia como se experimentasse nova vida. Mas não voou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direção do sol, para que seus olhos pudessem encher-se da claridade solar e da vastidão do horizonte.  Nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou como uma águia e começou a voar, a voar para o alto, a voar cada vez mais para o alto. Voou... voou... até confundir-se com o azul do firmamento...”

A partir da parábola “A águia e a galinha”, podemos dizer que Deus nos estimula a despertar a natureza que há em nós, visto ser Sua própria obra. Aquilo que fomos chamados para ser. Relegar essa natureza é viver preso em um cercado, muito aquém daquilo que Deus tem para nós. Não nascemos para ser “galinhas”. Mas, sim, ser renovados como águias: “Mas os que esperam no Senhor renovam as suas forças. Voam alto como águias; correm e não ficam exaustos, andam e não se cansam.”.

Que Deus nos ajude a ser igreja CHAMADA PARA FORA, que vive a realidade missional de se envolver e dialogar com o mundo, a fim de promover o reino de Deus em Espírito e em verdade.


Nos próximos dois encontros, iremos abordar a base para o chamado missional da igreja no Antigo Testamento e na vida e obra de Jesus, bem como as implicações para a igreja local.