Eclesiologia Missional
IGREJA: CHAMADOS PARA FORA
1. Olhando de dentro para fora
Quando chegou às
vilas de Cesaréia de Felipe, Jesus perguntou aos discípulos: o que o povo anda
dizendo a respeito do Filho do Homem? Eles responderam: “Alguns pensam que é
João, o Batista. Outros acham que é Elias. Há quem pense que é Jeremias ou
algum dos profetas”. Ele insistiu: “E vocês? Quem acham que eu sou?”. Simão
Pedro declarou: “Tu és o Cristo, o Messias, o Filho do Deus vivo!” Jesus
afirmou: “Deus o abençoe Simão, filho de Jonas! Você não retirou a resposta dos
livros, nem citou algum professor. Meu Pai no céu, o próprio Deus, revelou a
você o segredo sobre quem sou de fato. Agora vou dizer quem você é de verdade. Você
é Pedro, uma pedra. Essa é a pedra sobre a qual vou edificar minha igreja, uma
igreja tão exuberante e tão cheia de energia que nem as portas do inferno serão
capazes de obstruir o seu avanço.” (Mt 16.13-18 - Bíblia Mensagem).
Não há nada mais
relevante, na atualidade, do que analisar a igreja revelada por Deus ao longo
da Bíblia. Isso porque hoje estamos, como comunidade de discípulos de Jesus, em
um momento crítico na história. Embora o crescimento numérico do cristianismo seja
uma realidade, os valores cristãos impressos na sociedade e na própria igreja deixam
muito a desejar. Nesse sentido, é interessante observar um número crescente de pessoas
sem igreja (aqueles que se dizem cristãos, mas não participam de uma
comunidade) e a popularização de uma religiosidade “evangélica” ligada a
dinheiro, a charlatanice e a uma relação com Deus baseada em troca e beneficios
pessoais. Isso tem apontado para uma geração que não conhecerá a Deus como o
revelado pelas Escrituras ou, talvez, nem mesmo chegue a conhecer a Deus. Algo
parecido tem acontecido nos Estados Unidos: segundo estatísticas, a geração de
60 anos ainda vai à igreja; a de 40 anos conhece a igreja, mas não participa
dela; e a de 20 anos praticamente não a conhece.
Uma revelação importante
em relação à comunidade evangélica, entretanto, diz respeito aos seus indicadores
éticos e morais. No livro intitulado O
escândalo do comportamento evangélico, Ronald Sider traz uma estatística bastante
dsconfortável sobre aqueles que afirmam terem nascido de novo, participam
regularmente de suas igrejas, professam sua fé em Cristo e estão, de alguma
forma, envolvidos nas atividades e programas de suas igrejas: o índice de divórcio,
adultério, pornografia, racismo, abusos e violência doméstica de adultos, além
da atividade sexual fora do casamento e de DSTs entre jovens e adolescentes, é
praticamente o mesmo entre cristãos e não cristãos. Também, o percentual de ofertas
na igreja caiu na mesma proporção que a renda per capita aumentou (reflete o
espírito materialista e consumista da sociedade atual). O que nos assusta como
brasileiros é que se essa estatística fosse feita aqui, provavelmente os índices
seriam piores, pois somos uma igreja mais jovem, em uma cultura erotizada e
tolerantes com a mentira, a corrupção e as imoralidades. Mas a pesquisa
apontou, ainda, um dado mais alarmante: apenas 11% dos cristãos interpretam a
realidade, a cultura, o mundo o trabalho, as relações, a sexualidade, etc, a
partir de um fundamento bíblico e de uma ótica cristã. Realmente, diante disso
não fica difícil entender porque o testemunho ético e moral de cristãos e não
cristãos são tão próximos.
A essa realidade é
imprecindível uma pergunta: O que nós, como igreja crente na promessa de Jesus
de que “nem as portas do inferno serão
capazes de obstruir o seu avanço”, vamos fazer?
Para muitos
estudiosos, a resposta está na persistência: “─ Se insistirmos com fidelidade,
Deus honrará sua promessa!”. Para outros, temos que passar por um programa de
remodelação da igreja, a fim de comunicar o evangelho de forma que tenha
sentido na contemporaneidade e seja atrativa para os de fora. Outra opção seria
investir em um processo agressivo de plantação de igrejas, realocando nossas forças
para novas estruturas e linguagens, com o objetivo de sermos relevante na
sociedade e experimentarmos a nova vida do evangelho.
Creio, como alguém
que vive missões e tem dedicado a sua vida em contribuir para o estabelecimeno
do reino de Deus no mundo, que a maneira de modificar o quadro cristão atual
passa pelas três alternativas propostas, mas essencialmente, deve ir além
delas. Parece que o cerne do problema não é metodológico, mas teológico. Embora
não questionar a atual conjuntura da igreja seja fatal para sua sobrevivência,
a simples modificação da forma da mensagem, das técnicas ou das estruturas não
impedirá a reprodução dos mesmos modelos que culminaram na realidade atual. A
questão não é simplesmente “avançar sobre
o inferno”, mas, verdadeiramente, tornar-se uma igreja que vive a
declaração: “Tu és o Cristo, o Messias, o
Filho do Deus vivo!”. Esse é o ponto central da passagem bíblica; é essa
declaração que identifica a pedra sobre a qual a igreja é edificada. Assim,
quando a igreja vive sua profissão de fé, ela torna-se o que foi criada para
ser, pois o próprio Cristo a estabelece e faz crescer: “Essa é a pedra sobre a qual vou edificar minha igreja”. Quando a
igreja descobre e vive sua essência, “nem
as portas do inferno serão capazes de obstruir o seu avanço.”.
É preciso, portanto, para ser fiel a Cristo, repensar não somente a
apresentação externa da igreja, mas também sua natureza. O momento exige uma
reflexão teológica sobre a real razão da existência da comunidade cristã. A
pergunta que não quer calar é: O QUE É, AFINAL, SER IGREJA?
“...O que o povo
anda dizendo a respeito do Filho do Homem?
...E vocês? Quem
acham que eu sou?”.
Há um velho ditado popular que diz: vox
popoli, vox Dei, ou seja, a voz do povo é a voz de Deus. Nada mais
inverdade do que isso. Geralmente a sabedoria popular surge de experiências
circunstanciais e subjetivas. Não reflete, assim, a revelação de Deus. Jesus, na
passagem bíblica, compara a opinião pública com aquilo que ele tem ensinado aos
seus discípulos. E os faz perceber a distância entre as duas perspectivas: uma
coisa é o que o povo diz, outra é o que Deus sempre mostrou nas Escrituras e as
pessoas não entenderam. Jesus, de certa forma, estimula os seus discípulos a
repensarem suas bases teológicas.
Em relação ao conceito de igreja a situação parece não ser diferente. Geralmente
a palavra igreja está associada a uma construção ou a uma organização religiosa
mais ampla (Igreja Católica Romana, Igreja Presbiteriana, Igreja Batista). Mas,
também, a igreja pode representar apenas um grupo reunido para adorar a Deus. Há
muito, contudo, de sabedoria popular nessas perspectivas e há muito do que os
próprios cristãos estão acostumados a pensar em relação a igreja, ao ponto de se
acomodarem ao já pré-concebido. Na verdade, há muita coisa para aprender sobre o
que é a igreja.
O Novo Testamento usa várias imagens para descrever a igreja: comunidade
dos cristãos, povo de Deus, construção de Deus, lavoura de Deus, noiva do
cordeiro, corpo de Cristo, entre outros. Para fins de compreender o papel da
igreja no mundo onde ela está inserida, vamos destacar a figura da comunidade
que se reúne como povo de Deus.
Nesse sentido, pode-se perceber que a palavra “igreja” se deriva do
termo grego ekklesia = ek-kaleo, e significa “CHAMADOS PARA
FORA”. Embora essa expressão na Grécia antiga tenha se referido à assembléia
dos cidadãos com direito a voto, para os primeiros cristãos ela estava
relacionada com a convocação (e reunião) do povo de Deus no Antigo Testamento
para tomar decisões importantes em sua história (1Cr 28.8; 29.1,10,20). Sendo
assim, como comunidade do povo de Deus, a igreja (ekklesia) não se reúne apenas para prestar culto. Ela decide sobre
todas as áreas da vida humana. E por ser a comunidade de Deus, escolhida e
sustentada por ele, a igreja apenas
encontra justificativa para sua existência em Deus e na Sua missão de
interferir no mundo. Aí, nesse momento, ela estabelece a relação da declaração
de Pedro, “Tu és o Cristo, o Messias, o
Filho do Deus vivo!” com a afirmação de Jesus, “Essa é a pedra sobre a qual vou edificar minha igreja”. Jesus,
então, formará a sua comunidade quando ela se expressar como verdadeira
seguidora-discípula e se juntar a ele em sua missão, vivendo o seu envio: “Assim
como o Pai me enviou, eu envio vocês” (Jo. 20.21). Portanto, a igreja no Novo
Testamento, assim como a igreja na atualidade, é um agente da missão de Deus no
mundo. É “sal da terra e luz do mundo”. Deus envia sua igreja às nações para
transformá-las em discípulas de Jesus (Mt 28.19-20).
O CHAMADO PARA FORA, por isso, não deve ser entendido como uma despedida
do mundo. Trata-se muito mais de um chamado para se ocupar das tarefas da
missão de Deus no mundo e para o mundo. A igreja é, enfim, CHAMADA PARA FORA,
das trevas para a luz, onde não vive voltada para si mesma, mas para o serviço
em prol de uma missão: “Vocês, porém, são... povo exclusivo de Deus, para anunciar as gradezas daquele que os
chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1Pe 2.9).
“Agora vou dizer
quem você é de verdade...”
“...uma igreja tão
exuberante e tão cheia de energia que nem as portas do inferno serão capazes de
obstruir o seu avanço.”
A igreja, pelo exposto até aqui, pode ser entendida, então, como o braço
missionário de Deus no mundo. Embora a missão sempre seja de Deus (missio Dei), Deus escolheu a igreja como
agente do seu reino, como cooperadora em sua missão. Essa realidade tem sido
chamada de “missional”, a qual significa nada mais nada menos do que
“missionária por natureza”. É importante atentar para esse ajuste do termo
“missionário”. Tradicionalmente, “missionário” é identificado com pessoas
específicas, destinadas a uma tarefa específica, em um local específico. Ou
seja, uma determinada comunidade ou uma denominação envia pessoas para a obra
missionária em um determinado local. Isso faz da missão uma mera função da
igreja e não sua natureza.
Ao usar a terminologia “missional”, pretende-se ressaltar a natureza da
igreja como sendo missionária. Nesse sentido, toda a comunidade que se reúne
como povo de Deus é CHAMADA PARA FORA e deve estar voltada para os de fora, a
fim de cooperar na missão de Deus: “Deus
se reconciliou com o Mundo por meio do Messias, permitindo um novo começo pela
oferta de perdão dos pecados. Deus nos deu a tarefa de contar a todos o que ele
está fazendo. Somos representantes de Cristo. Deus nos usa para persuadir
homens e mulheres a deixar as diferenças de lado e ingressar na obra de Deus e
para reconciliar o ser humano com ele.” (2Co 5.18-19). Nas palavras do
pastor alemão Dietrich Bonhoeffer “a igreja só é igreja quando o é para os de
fora”.
Sendo assim, nenhum aspecto da existência da igreja
pode distanciá-la do contexto da missão de Deus no mundo. Não há área da
comunidade centrada em si mesma, focada em suas necessidades. Não cabe, nessa
realidade, um olhar para dentro e outro para fora: o que acontece dentro da
igreja deve estar voltado, eminentemente, para fora, impulsionado pela missão e
em direção ao mundo. Nesse sentido, Jesus disse: “Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do maligno. Eles
não são mais orientados pelo mundo, assim como eu também não sou... Assim como
me deste uma missão no mundo, eu dei a eles uma missão no mundo” (Jo
17.15-18 Bíblia Mensagem). Isso indica a natureza missional da igreja: no
mundo, mas não do mundo; para o mundo, mas sem ser mundano; dedicada ao mundo,
embora não dominada por ele; transformadora do mundo e não apenas sobrevivente
a ele.
O estar no mundo, no entanto, ressalta outra característica missional:
ser uma comunidade que dialoga com a cultura, fazendo-se presente em um
determinado contexto. Ela é um grão que precisa germinar da terra. Necessita, então, se identificar com o seu meio e, ali,
frutificar. À semelhança de Jesus
que se fez humano, a comunidade de discípulos deve “encarnar-se” na cultura
local (Fl 2.5-8). Perceba que voltar-se para o mundo e dialogar com o mundo são
dois lados da mesma moeda. A perspectiva missionária, assim, nunca é impositiva
de usos e constumes que a igreja tem adquiridos ao longo de sua história, mas
aberta para abrir mão do que lhe é confortável, a fim de comunicar o evangelho
todo, para todas as pessoas, de maneira que todos o compreendam.
Uma comunidade na perspectiva missional, portanto, é uma comunidade
contextualizada. Segundo o pastor norte-americano Tim Keller, contextualização
é dar as respostas de Deus para as perguntas que as pessoas estão fazendo e de
uma forma que elas possam compreender. Isso significa que as pessoas poderão
rejeitar a mensagem, pelo fato da resposta de Deus não ser exatamente aquilo
que elas querem. Porém, a igreja cumprirá o seu papel em anunciar o evangelho
com fidelidade e clareza. Assim, cabe a
nós, igreja em missão, começarmos a pensar a partir de três perguntas: 1)Quem
nós somos? 2)Onde nós estamos? 3)O que Deus quer fazer com quem nós somos, onde
nós estamos? Essa deve ser a nossa diretriz como comunidade CHAMADA PARA FORA.
Veremos mais sobre isso nos encontros seguintes. Mas, sem dúvida, a partir dessa
perspectiva, a igreja será capaz de tornar-se “tão exuberante e tão cheia de energia que nem as portas do inferno
serão capazes de obstruir o seu avanço.”.
A
águia e a galinha...
Há uma história antiga que expressa bem a nossa necessidade de ser
aquilo que fomos chamados para ser... Essa história é a base do livro de
Leonardo Boff, chamado “A águia e a galinha”.
“Era uma vez um camponês que foi a floresta vizinha apanhar um pássaro
para mantê-lo em sua casa. Conseguiu pegar um filhote de águia. Coloco-o no
galinheiro junto com as galinhas. Comia milho e ração própria para galinhas...
Depois de cinco anos, este homem recebeu em sua casa a visita de um
naturalista. Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturalista: - Esse
pássaro aí não é galinha. É uma águia. - De fato – disse o camponês -, mas eu a
criei como galinha. Agora, ela não é mais uma águia. Transformou-se em galinha
como as outras. - Não – retrucou o naturalista. Ela é e será sempre uma águia.
Pois tem um coração de águia. Este coração a fará um dia voar ás alturas. -
Não, não – insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como
águia. Então decidiram fazer uma prova.
O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e a soltou. Mas a águia pousou
sobre o braço estendido do naturalista. Depois, olhando distraidamente ao
redor, viu as galinhas ciscando grãos e pulou para junto delas. O camponês
comentou: - Eu lhe disse, ela virou uma
simples galinha! - Não – tornou a
insistir o naturalista. Ela é uma águia.
E uma águia será sempre uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã.
No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no teto da casa.
Sussurrou-lhe: - Águia, já que você é uma águia, abra as suas asas e voe! Mas quando a águia viu lá embaixo as
galinhas, ciscando o chão, pulou e foi para junto delas. O camponês sorriu e voltou à carga: - Eu lhe
havia dito, ela virou galinha! - Não –
respondeu firmemente o naturalista. Ela é águia, possuirá sempre um coração de
águia. Vamos experimentar ainda uma ultima vez. Amanhã a farei voar. No dia
seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a águia,
levaram para fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto de uma
montanha. O sol nascente surgia nas montanhas. O naturalista, então, ergueu a
águia para o alto e ordenou-lhe: - Águia, já que você é uma águia, já que você
pertence ao céu e não à terra, abra suas asas e voe! A águia olhou ao redor. Tremia como se
experimentasse nova vida. Mas não voou. Então o naturalista segurou-a
firmemente, bem na direção do sol, para que seus olhos pudessem encher-se da
claridade solar e da vastidão do horizonte.
Nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou como uma águia e começou
a voar, a voar para o alto, a voar cada vez mais para o alto. Voou... voou...
até confundir-se com o azul do firmamento...”
A partir da parábola “A águia e a galinha”, podemos dizer que Deus nos
estimula a despertar a natureza que há em nós, visto ser Sua própria obra.
Aquilo que fomos chamados para ser. Relegar essa natureza é viver preso em um
cercado, muito aquém daquilo que Deus tem para nós. Não nascemos para ser “galinhas”.
Mas, sim, ser renovados como águias: “Mas
os que esperam no Senhor renovam as suas forças. Voam alto como águias; correm
e não ficam exaustos, andam e não se cansam.”.
Que Deus nos ajude a ser igreja CHAMADA PARA FORA, que vive a realidade
missional de se envolver e dialogar com o mundo, a fim de promover o reino de
Deus em Espírito e em verdade.
Nos próximos dois encontros, iremos abordar a base para o chamado
missional da igreja no Antigo Testamento e na vida e obra de Jesus, bem como as
implicações para a igreja local.

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