quarta-feira, 2 de março de 2016

Igreja: chamados para fora - parte 1/3

Eclesiologia Missional

IGREJA: CHAMADOS PARA FORA

1. Olhando de dentro para fora

 Quando chegou às vilas de Cesaréia de Felipe, Jesus perguntou aos discípulos: o que o povo anda dizendo a respeito do Filho do Homem? Eles responderam: “Alguns pensam que é João, o Batista. Outros acham que é Elias. Há quem pense que é Jeremias ou algum dos profetas”. Ele insistiu: “E vocês? Quem acham que eu sou?”. Simão Pedro declarou: “Tu és o Cristo, o Messias, o Filho do Deus vivo!” Jesus afirmou: “Deus o abençoe Simão, filho de Jonas! Você não retirou a resposta dos livros, nem citou algum professor. Meu Pai no céu, o próprio Deus, revelou a você o segredo sobre quem sou de fato. Agora vou dizer quem você é de verdade. Você é Pedro, uma pedra. Essa é a pedra sobre a qual vou edificar minha igreja, uma igreja tão exuberante e tão cheia de energia que nem as portas do inferno serão capazes de obstruir o seu avanço.” (Mt 16.13-18 - Bíblia Mensagem).

Não há nada mais relevante, na atualidade, do que analisar a igreja revelada por Deus ao longo da Bíblia. Isso porque hoje estamos, como comunidade de discípulos de Jesus, em um momento crítico na história. Embora o crescimento numérico do cristianismo seja uma realidade, os valores cristãos impressos na sociedade e na própria igreja deixam muito a desejar. Nesse sentido, é interessante observar um número crescente de pessoas sem igreja (aqueles que se dizem cristãos, mas não participam de uma comunidade) e a popularização de uma religiosidade “evangélica” ligada a dinheiro, a charlatanice e a uma relação com Deus baseada em troca e beneficios pessoais. Isso tem apontado para uma geração que não conhecerá a Deus como o revelado pelas Escrituras ou, talvez, nem mesmo chegue a conhecer a Deus. Algo parecido tem acontecido nos Estados Unidos: segundo estatísticas, a geração de 60 anos ainda vai à igreja; a de 40 anos conhece a igreja, mas não participa dela; e a de 20 anos praticamente não a conhece.

Uma revelação importante em relação à comunidade evangélica, entretanto, diz respeito aos seus indicadores éticos e morais. No livro intitulado O escândalo do comportamento evangélico, Ronald Sider traz uma estatística bastante dsconfortável sobre aqueles que afirmam terem nascido de novo, participam regularmente de suas igrejas, professam sua fé em Cristo e estão, de alguma forma, envolvidos nas atividades e programas de suas igrejas: o índice de divórcio, adultério, pornografia, racismo, abusos e violência doméstica de adultos, além da atividade sexual fora do casamento e de DSTs entre jovens e adolescentes, é praticamente o mesmo entre cristãos e não cristãos. Também, o percentual de ofertas na igreja caiu na mesma proporção que a renda per capita aumentou (reflete o espírito materialista e consumista da sociedade atual). O que nos assusta como brasileiros é que se essa estatística fosse feita aqui, provavelmente os índices seriam piores, pois somos uma igreja mais jovem, em uma cultura erotizada e tolerantes com a mentira, a corrupção e as imoralidades. Mas a pesquisa apontou, ainda, um dado mais alarmante: apenas 11% dos cristãos interpretam a realidade, a cultura, o mundo o trabalho, as relações, a sexualidade, etc, a partir de um fundamento bíblico e de uma ótica cristã. Realmente, diante disso não fica difícil entender porque o testemunho ético e moral de cristãos e não cristãos são tão próximos.

A essa realidade é imprecindível uma pergunta: O que nós, como igreja crente na promessa de Jesus de que “nem as portas do inferno serão capazes de obstruir o seu avanço”, vamos fazer?

Para muitos estudiosos, a resposta está na persistência: “─ Se insistirmos com fidelidade, Deus honrará sua promessa!”. Para outros, temos que passar por um programa de remodelação da igreja, a fim de comunicar o evangelho de forma que tenha sentido na contemporaneidade e seja atrativa para os de fora. Outra opção seria investir em um processo agressivo de plantação de igrejas, realocando nossas forças para novas estruturas e linguagens, com o objetivo de sermos relevante na sociedade e experimentarmos a nova vida do evangelho.

Creio, como alguém que vive missões e tem dedicado a sua vida em contribuir para o estabelecimeno do reino de Deus no mundo, que a maneira de modificar o quadro cristão atual passa pelas três alternativas propostas, mas essencialmente, deve ir além delas. Parece que o cerne do problema não é metodológico, mas teológico. Embora não questionar a atual conjuntura da igreja seja fatal para sua sobrevivência, a simples modificação da forma da mensagem, das técnicas ou das estruturas não impedirá a reprodução dos mesmos modelos que culminaram na realidade atual. A questão não é simplesmente “avançar sobre o inferno”, mas, verdadeiramente, tornar-se uma igreja que vive a declaração: “Tu és o Cristo, o Messias, o Filho do Deus vivo!”. Esse é o ponto central da passagem bíblica; é essa declaração que identifica a pedra sobre a qual a igreja é edificada. Assim, quando a igreja vive sua profissão de fé, ela torna-se o que foi criada para ser, pois o próprio Cristo a estabelece e faz crescer: “Essa é a pedra sobre a qual vou edificar minha igreja”. Quando a igreja descobre e vive sua essência, “nem as portas do inferno serão capazes de obstruir o seu avanço.”.

É preciso, portanto, para ser fiel a Cristo, repensar não somente a apresentação externa da igreja, mas também sua natureza. O momento exige uma reflexão teológica sobre a real razão da existência da comunidade cristã. A pergunta que não quer calar é: O QUE É, AFINAL, SER IGREJA?

“...O que o povo anda dizendo a respeito do Filho do Homem?
...E vocês? Quem acham que eu sou?”.

Há um velho ditado popular que diz: vox popoli, vox Dei, ou seja, a voz do povo é a voz de Deus. Nada mais inverdade do que isso. Geralmente a sabedoria popular surge de experiências circunstanciais e subjetivas. Não reflete, assim, a revelação de Deus. Jesus, na passagem bíblica, compara a opinião pública com aquilo que ele tem ensinado aos seus discípulos. E os faz perceber a distância entre as duas perspectivas: uma coisa é o que o povo diz, outra é o que Deus sempre mostrou nas Escrituras e as pessoas não entenderam. Jesus, de certa forma, estimula os seus discípulos a repensarem suas bases teológicas.

Em relação ao conceito de igreja a situação parece não ser diferente. Geralmente a palavra igreja está associada a uma construção ou a uma organização religiosa mais ampla (Igreja Católica Romana, Igreja Presbiteriana, Igreja Batista). Mas, também, a igreja pode representar apenas um grupo reunido para adorar a Deus. Há muito, contudo, de sabedoria popular nessas perspectivas e há muito do que os próprios cristãos estão acostumados a pensar em relação a igreja, ao ponto de se acomodarem ao já pré-concebido. Na verdade, há muita coisa para aprender sobre o que é a igreja.

O Novo Testamento usa várias imagens para descrever a igreja: comunidade dos cristãos, povo de Deus, construção de Deus, lavoura de Deus, noiva do cordeiro, corpo de Cristo, entre outros. Para fins de compreender o papel da igreja no mundo onde ela está inserida, vamos destacar a figura da comunidade que se reúne como povo de Deus.

Nesse sentido, pode-se perceber que a palavra “igreja” se deriva do termo grego ekklesia = ek-kaleo, e significa “CHAMADOS PARA FORA”. Embora essa expressão na Grécia antiga tenha se referido à assembléia dos cidadãos com direito a voto, para os primeiros cristãos ela estava relacionada com a convocação (e reunião) do povo de Deus no Antigo Testamento para tomar decisões importantes em sua história (1Cr 28.8; 29.1,10,20). Sendo assim, como comunidade do povo de Deus, a igreja (ekklesia) não se reúne apenas para prestar culto. Ela decide sobre todas as áreas da vida humana. E por ser a comunidade de Deus, escolhida e sustentada por ele, a igreja apenas encontra justificativa para sua existência em Deus e na Sua missão de interferir no mundo. Aí, nesse momento, ela estabelece a relação da declaração de Pedro, “Tu és o Cristo, o Messias, o Filho do Deus vivo!” com a afirmação de Jesus, “Essa é a pedra sobre a qual vou edificar minha igreja”. Jesus, então, formará a sua comunidade quando ela se expressar como verdadeira seguidora-discípula e se juntar a ele em sua missão, vivendo o seu envio: “Assim como o Pai me enviou, eu envio vocês” (Jo. 20.21). Portanto, a igreja no Novo Testamento, assim como a igreja na atualidade, é um agente da missão de Deus no mundo. É “sal da terra e luz do mundo”. Deus envia sua igreja às nações para transformá-las em discípulas de Jesus (Mt 28.19-20).

O CHAMADO PARA FORA, por isso, não deve ser entendido como uma despedida do mundo. Trata-se muito mais de um chamado para se ocupar das tarefas da missão de Deus no mundo e para o mundo. A igreja é, enfim, CHAMADA PARA FORA, das trevas para a luz, onde não vive voltada para si mesma, mas para o serviço em prol de uma missão: “Vocês, porém, são... povo exclusivo de Deus, para anunciar as gradezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1Pe 2.9).

“Agora vou dizer quem você é de verdade...”
“...uma igreja tão exuberante e tão cheia de energia que nem as portas do inferno serão capazes de obstruir o seu avanço.”

A igreja, pelo exposto até aqui, pode ser entendida, então, como o braço missionário de Deus no mundo. Embora a missão sempre seja de Deus (missio Dei), Deus escolheu a igreja como agente do seu reino, como cooperadora em sua missão. Essa realidade tem sido chamada de “missional”, a qual significa nada mais nada menos do que “missionária por natureza”. É importante atentar para esse ajuste do termo “missionário”. Tradicionalmente, “missionário” é identificado com pessoas específicas, destinadas a uma tarefa específica, em um local específico. Ou seja, uma determinada comunidade ou uma denominação envia pessoas para a obra missionária em um determinado local. Isso faz da missão uma mera função da igreja e não sua natureza.

Ao usar a terminologia “missional”, pretende-se ressaltar a natureza da igreja como sendo missionária. Nesse sentido, toda a comunidade que se reúne como povo de Deus é CHAMADA PARA FORA e deve estar voltada para os de fora, a fim de cooperar na missão de Deus: “Deus se reconciliou com o Mundo por meio do Messias, permitindo um novo começo pela oferta de perdão dos pecados. Deus nos deu a tarefa de contar a todos o que ele está fazendo. Somos representantes de Cristo. Deus nos usa para persuadir homens e mulheres a deixar as diferenças de lado e ingressar na obra de Deus e para reconciliar o ser humano com ele.” (2Co 5.18-19). Nas palavras do pastor alemão Dietrich Bonhoeffer “a igreja só é igreja quando o é para os de fora”.

Sendo assim, nenhum aspecto da existência da igreja pode distanciá-la do contexto da missão de Deus no mundo. Não há área da comunidade centrada em si mesma, focada em suas necessidades. Não cabe, nessa realidade, um olhar para dentro e outro para fora: o que acontece dentro da igreja deve estar voltado, eminentemente, para fora, impulsionado pela missão e em direção ao mundo. Nesse sentido, Jesus disse: “Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do maligno. Eles não são mais orientados pelo mundo, assim como eu também não sou... Assim como me deste uma missão no mundo, eu dei a eles uma missão no mundo” (Jo 17.15-18 Bíblia Mensagem). Isso indica a natureza missional da igreja: no mundo, mas não do mundo; para o mundo, mas sem ser mundano; dedicada ao mundo, embora não dominada por ele; transformadora do mundo e não apenas sobrevivente a ele.

O estar no mundo, no entanto, ressalta outra característica missional: ser uma comunidade que dialoga com a cultura, fazendo-se presente em um determinado contexto. Ela é um grão que precisa germinar da terra. Necessita, então, se identificar com o seu meio e, ali, frutificar. À semelhança de Jesus que se fez humano, a comunidade de discípulos deve “encarnar-se” na cultura local (Fl 2.5-8). Perceba que voltar-se para o mundo e dialogar com o mundo são dois lados da mesma moeda. A perspectiva missionária, assim, nunca é impositiva de usos e constumes que a igreja tem adquiridos ao longo de sua história, mas aberta para abrir mão do que lhe é confortável, a fim de comunicar o evangelho todo, para todas as pessoas, de maneira que todos o compreendam.

Uma comunidade na perspectiva missional, portanto, é uma comunidade contextualizada. Segundo o pastor norte-americano Tim Keller, contextualização é dar as respostas de Deus para as perguntas que as pessoas estão fazendo e de uma forma que elas possam compreender. Isso significa que as pessoas poderão rejeitar a mensagem, pelo fato da resposta de Deus não ser exatamente aquilo que elas querem. Porém, a igreja cumprirá o seu papel em anunciar o evangelho com fidelidade e clareza.  Assim, cabe a nós, igreja em missão, começarmos a pensar a partir de três perguntas: 1)Quem nós somos? 2)Onde nós estamos? 3)O que Deus quer fazer com quem nós somos, onde nós estamos? Essa deve ser a nossa diretriz como comunidade CHAMADA PARA FORA. 

Veremos mais sobre isso nos encontros seguintes. Mas, sem dúvida, a partir dessa perspectiva, a igreja será capaz de tornar-se “tão exuberante e tão cheia de energia que nem as portas do inferno serão capazes de obstruir o seu avanço.”.

A águia e a galinha...

Há uma história antiga que expressa bem a nossa necessidade de ser aquilo que fomos chamados para ser... Essa história é a base do livro de Leonardo Boff, chamado “A águia e a galinha”.

“Era uma vez um camponês que foi a floresta vizinha apanhar um pássaro para mantê-lo em sua casa. Conseguiu pegar um filhote de águia. Coloco-o no galinheiro junto com as galinhas. Comia milho e ração própria para galinhas... Depois de cinco anos, este homem recebeu em sua casa a visita de um naturalista. Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturalista: - Esse pássaro aí não é galinha. É uma águia. - De fato – disse o camponês -, mas eu a criei como galinha. Agora, ela não é mais uma águia. Transformou-se em galinha como as outras. - Não – retrucou o naturalista. Ela é e será sempre uma águia. Pois tem um coração de águia. Este coração a fará um dia voar ás alturas. - Não, não – insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como águia.  Então decidiram fazer uma prova. O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e a soltou. Mas a águia pousou sobre o braço estendido do naturalista. Depois, olhando distraidamente ao redor, viu as galinhas ciscando grãos e pulou para junto delas. O camponês comentou:  - Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha!  - Não – tornou a insistir o naturalista. Ela é uma águia.  E uma águia será sempre uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã. No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no teto da casa. Sussurrou-lhe: - Águia, já que você é uma águia, abra as suas asas e voe!  Mas quando a águia viu lá embaixo as galinhas, ciscando o chão, pulou e foi para junto delas.  O camponês sorriu e voltou à carga: - Eu lhe havia dito, ela virou galinha!  - Não – respondeu firmemente o naturalista. Ela é águia, possuirá sempre um coração de águia. Vamos experimentar ainda uma ultima vez. Amanhã a farei voar. No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a águia, levaram para fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto de uma montanha. O sol nascente surgia nas montanhas. O naturalista, então, ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe: - Águia, já que você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, abra suas asas e voe!  A águia olhou ao redor. Tremia como se experimentasse nova vida. Mas não voou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direção do sol, para que seus olhos pudessem encher-se da claridade solar e da vastidão do horizonte.  Nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou como uma águia e começou a voar, a voar para o alto, a voar cada vez mais para o alto. Voou... voou... até confundir-se com o azul do firmamento...”

A partir da parábola “A águia e a galinha”, podemos dizer que Deus nos estimula a despertar a natureza que há em nós, visto ser Sua própria obra. Aquilo que fomos chamados para ser. Relegar essa natureza é viver preso em um cercado, muito aquém daquilo que Deus tem para nós. Não nascemos para ser “galinhas”. Mas, sim, ser renovados como águias: “Mas os que esperam no Senhor renovam as suas forças. Voam alto como águias; correm e não ficam exaustos, andam e não se cansam.”.

Que Deus nos ajude a ser igreja CHAMADA PARA FORA, que vive a realidade missional de se envolver e dialogar com o mundo, a fim de promover o reino de Deus em Espírito e em verdade.


Nos próximos dois encontros, iremos abordar a base para o chamado missional da igreja no Antigo Testamento e na vida e obra de Jesus, bem como as implicações para a igreja local.

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