sábado, 13 de fevereiro de 2016

João 15.1-8: a poda que frutifica

"Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que, estando em mim, não dá fruto, ele corta; e todo que dá fruto ele poda, para que dê mais fruto ainda. Vocês já estão limpos, pela palavra que lhes tenho falado. Permaneçam em mim, e eu permanecerei em vocês. Nenhum ramo pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Vocês também não podem dar fruto, se não permanecerem em mim. Eu sou a videira; vocês são os ramos. Se alguém permanecer em mim e eu nele, esse dará muito fruto; pois sem mim vocês não podem fazer coisa alguma. Se alguém não permanecer em mim, será como o ramo que é jogado fora e seca. Tais ramos são apanhados, lançados ao fogo e queimados. Se vocês permanecerem em mim, e as minhas palavras permanecerem em vocês, pedirão o que quiserem, e lhes será concedido. Meu Pai é glorificado pelo fato de vocês darem muito fruto; e assim serão meus discípulos." (João 15.1-8)

Quando leio João 15 me vem à lembrança minha lida com a agricultura. Posso dizer, com certeza, que a poda de videiras é uma das práticas culturais agrícolas mais desafiadoras. Primeiramente, temos de conhecer os ramos potencialmente frutíferos e diferenciá-los dos vegetativos e dos ditos ramos “ladrões” (apenas sugam a energia da videira, mas jamais darão fruto). O próximo passo é fazer a poda corretamente, direcionando o crescimento do ramo para a luz, a fim de produzir os melhores frutos. Se a poda não é feita (ou é mal feita) os ramos crescem enrolados e sem direção, perdendo a energia da luz. Nesse caso, expressam frutos de má qualidade.

Creio que a figura usada por Jesus no Evangelho de João leva em consideração esse processo. Os frutos são o sentido da videira, o seu propósito do ponto de vista do agricultor. E, talvez, o grande propósito de Jesus aqui seja direcionar a formação de seres humanos ligados a ele, os quais devem expressar sua vida e sua natureza. Entretanto, essa necessária frutificação apenas acontece através da PODA (v.2 - a palavra utilizada por João também significa “limpa”, “purifica”).

Mas o que significa essa PODA?

Parece, pelo contexto da narrativa de João, que a fala de Jesus aponta para o seu sofrimento, o qual também será experimentado pelos discípulos, a fim de eles darem mais frutos. O seu ensino, assim, aponta para a cruz de cada dia, à semelhança do próprio Jesus que caminha para a “grande cruz” (cf. 16.1-4; 33). 

Nesse sentido, é possível falar de pessoas consoladas, orientadas e capacitadas pelo Espírito em meio às aflições do mundo (tema constante do contexto maior – capítulos 14 a 17), cujos frutos revelam Deus no mundo (cf. v.16; João 17.17-21 e Gálatas 5.16-26).

Viver o reino de Deus, então, exigirá rupturas, confrontos e o abandono de ambições pessoais. Algo que, parece, os discípulos já tem feito (v.3). Mas ainda é só o começo. Eles devem estar preparados para mais poda, como a perseguição (v.18s). A frutificação, portanto, é um processo tão dolorido quanto belo. Não pode ser romantizado. 

Mas, na nossa vida, não é apenas através de perseguições, comuns pela proposta revolucionária do evangelho, que o sofrimento acontece. Ele pode vir, também, a partir de doenças, depressão, solidão, privações, graves problemas morais, pressão familiar, tragédia, acidente ou morte. Ninguém pode acusar a Bíblia de apresentar um quadro otimista sobre como seria a vida daqueles que seguem a Jesus. Da mesma maneira, ninguém busca ou flerta com o sofrimento, como se ele fosse um benefício em si mesmo. E há sofrimento cuja dor é incalculável. Mas, quando ele vier, sabemos que "somos mais do que vencedores por meio daquele que nos amou" (Romanos 8.37).

Acho que esse é o desafio proposto por Jesus em sua figura da poda na videira: devemos estar prontos para enfrentar as dificuldades de cada dia, ligados a Cristo, a fim de transformar o mal em bem e adquirir a vida de Jesus.

Como isso é possível?

Observe que a videira e os ramos têm a mesma seiva fluindo. O interior é o mesmo. Existe unidade. O ramo frutífero é expressão da seiva fértil da videira. Talvez por isso, essa passagem seja tão utilizada pelos antigos cristãos para descrever a união mística com Cristo: ser um com Ele e estabelecer a intimidade mais profunda com o Amado. É essa união que nos possibilita suportar a poda constante e transformar o nosso caráter (v.5). Assim, dentro dessa magnífica imagem, podemos dizer que duas características da espiritualidade cristã se destacam: a intimidade com Deus e o sofrimento.

Jesus, então, convida você e eu para uma profunda unidade (v.4), cuja direção e propósito é a nova natureza da nova criação de Deus em e através de Jesus. Perceba que Jesus, aqui, está estabelecendo as bases de um novo mundo, o qual deve ser incorporado pelos seus discípulos, no poder do Espírito. E o caminho inevitável, através do qual isso irá acontecer, é o sofrimento. Em outras palavras, é a cruz de cada dia; a luta para se incorporar a um reino de amor, paz e justiça estabelecido em e através do Cristo Jesus, em contraposição ao mundo governado por falsos deuses (poder, prazer, dinheiro, etc).

Por que tem de ser tão difícil?

O ser humano foi mal direcionado. Como diz o ditado: "pau que nasce torto não dá mais para endireitar". Entretanto, em Cristo e no poder do Espírito, isso é possível. Há séculos os falsos deuses têm determinado nossa cosmovisão (como enxergamos o mundo) e influenciado nosso comportamento. Na verdade, uma das marcas da humanidade sem Deus é sua idolatria. Ela é, portanto, direcionada para propósitos diferentes dos de Deus - somos formatados à imagem daquilo que adoramos. Usando a analogia da poda, é como se fossemos conduzidos para longe da luz. A consequência são os frutos de má qualidade (cf. Gálatas 5.19-21). Existe, então, uma verdadeira luta do Espírito contra a "carne" (natureza humana sem Deus) - cf. Gálatas 5.17. Pelo que parece, o sofrimento é um dos principais meios para "podar" a velha natureza e formar a natureza de Cristo (cf. Gálatas 5.24; Colossenses 3.1-17; Romanos 8; 1Pedro 4).

Um detalhe fundamental...

É importante observar em João 15 o fato da videira ser um símbolo típico de Israel. Profetas como Isaías (cf. capítulo 5) dizem que a videira de Israel tem produzido uvas de má qualidade. Agora Jesus está dizendo que ele é a “videira verdadeira” (v.1). Em outras palavras, Jesus parece dizer que ele é o verdadeiro Israel. Ele é aquele onde os propósitos de Deus são alcançados. O que Israel (e nós) não conseguiu cumprir, Jesus cumpre. Nele é possível produzir abundante frutificação, vida completa. Nele é possível ser luz para as nações, um povo renovado à imagem de Deus, que expressa o reino de Deus que já veio em Jesus, foi conquistado na cruz e na ressurreição do Messias, e cuja esperança de um estabelecimento definitivo nessa terra não escapa de nosso coração.

O convite de Jesus, portanto, é para os seus seguidores, membros do verdadeiro povo de Deus, permanecerem Nele, não apenas como indivíduos (conceito iluminista), mas como uma grande árvore frutífera, a igreja, cujo estilo de vida antecipa e aponta para o reino de Deus. Isso significa que nenhum galho se desenvolve sozinho, longe da videira e de outros ramos. Estes tendem a secar e a morrer. Seu destino é o fogo (v.6).  Por outro lado, os ramos que permanecem na videira e se submetem à tesoura do “podador”, vivem e frutificam. Parece ser essa a perspectiva de Jesus para os seus seguidores, ou seja, para todos nós.

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Podemos dizer, finalmente, que o Deus criador, o qual fez uma aliança com a humanidade para redimir o mundo desde Abraão (Gn 12.1-3), se tornou o Deus Salvador em e através de Jesus. Ligados a ele, cooperamos para que sua vontade seja feita na terra como é feita no céu e antecipamos a vinda de seu reino glorioso. Nosso caminho, portanto, é adorá-lo e servi-lo de todo o coração, junto com uma comunidade de pessoas em formação, ramos ainda em processo de poda e redirecionamento, cujas vidas foram conquistadas na cruz. A igreja, então, é a comunidade que conhece, ama e celebra Jesus como Senhor e Salvador. E, quando nossa vida entra em harmonia com Jesus, a partir da cruz e das “podas” de cada dia, creio, nossas orações serão respondidas (v.7), pois oraremos e viveremos segundo a vontade de Deus. 

Pr. Vinicius

Leitura recomendada
N.T Wright - NT for Everyone, Simplesmente Cristão e Surpreendido pelas Escrituras.

Um comentário:

  1. Linda mensagem:aprendir muito,que Deus abençoe o senhor,e tua familia amem.

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