segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Jo 15.9-17: amar como Jesus amou


9 Como o Pai me amou, assim eu amei vocês; permaneçam no meu amor. 10 Se vocês guardarem os meus mandamentos, permanecerão no meu amor, assim como tenho guardado os mandamentos de meu Pai e em seu amor permaneço. 11 Tenho dito essas coisas para vocês, a fim de que a minha alegria esteja em vocês e a alegria de vocês seja completa. 12 O meu mandamento é este: Amem-se uns aos outros da mesma maneira que eu amei vocês. 13 Ninguém tem maior amor do que aquele que entrega a sua vida pelos seus amigos. 14 Vocês são meus amigos se vocês fazem o que eu falo a vocês. 15 Já não chamo vocês de servos, porque o servo não sabe o que o seu senhor faz. Em vez disso, eu tenho chamado vocês de amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai eu tornei conhecido a vocês. 16 Vocês não me escolheram, mas eu escolhi vocês para irem e darem fruto, fruto que permaneça. Então, o Pai dará a vocês qualquer coisa que pedirem em meu nome. 17 Este é o meu mandamento para vocês: Amem-se uns aos outros.

O contexto do capítulo 15 do Evangelho de João fala de Jesus como a “videira verdadeira” (o verdadeiro Israel, onde todos os propósitos de Deus são cumpridos) e da “poda” (as inevitáveis situações de sofrimento e dificuldades) como instrumento de Deus para levar os ramos-discípulos a produzirem frutos de qualidade (a nova natureza, a qual promove e antecipa a nova criação de Deus em e através de Jesus). 

O amor, nessa situação, parece ser a principal característica da vida frutífera. E ele vem a partir de um mandamento: “amem uns aos outros!” (v. 12 e 17). Nos versículos 9, 10 e 16, ainda, a orientação é “permanecer no amor”. Isso significa que devemos viver no contexto do amor. O amor é o grande eixo ao redor do tudo o mais acontece.

A tradição da igreja conta que quando João estava bem velhinho, morando em Éfeso, já cego e sem forças para andar, repetia sem cessar à igreja que lá se reunia: “Filhinhos, amem uns aos outros!”. Seus amigos, então, lhe diziam: “Paizinho, nós já sabemos tudo isso, por que você ainda insiste em repetir esse ensinamento”. A resposta de João era clara: “Porque foi esse o maior ensinamento de nosso Senhor; façam isso e viverão!” (Cf. R. Foster, Rios de Água Viva).

E o que significa esse “amor”?

A resposta a essa pergunta começa com o surpreendente v. 12: ”Amem-se uns aos outros da mesma maneira que eu amei vocês”. Prestem atenção à referência: devemos amar da mesma maneira que Jesus amou. Esse é o grande detalhe. A perspectiva de Deus para o amor supera as relações horizontais. O mandamento da Lei diz: “ame ao próximo como a ti mesmo”. Outra forma de dizer isso é: “pense como você gostaria de ser tratado; então vá lá e faça o mesmo com a outra pessoa” (Cf. Mateus 7.12). Perceba que você é a referência. Então, o amor vai se basear naquilo que você faz ou sente.

Jesus, por outro lado, revoluciona todos os conceitos quando extrapola as relações horizontais (eu + outro) e adiciona a relação vertical (nós + Deus). A referência do amor não é limitada aos bons sentimentos por alguém ou a atos de bondade (embora, com certeza, não seja menos do que isso). A referência é a vida de Jesus e o seu caminho obediente até a cruz, onde se entrega para trazer a verdadeira vida ao mundo (v.13 e 16; cf. João 16.16 e 10.10).

A “ordem” de Jesus, então, é para uma mudança de cosmovisão (como enxergamos o mundo), a partir da qual redirecionamos nossa vida. Fomos construídos socialmente para imaginar o amor apenas como sentimentos e atos de bondade. Jesus nos desafia a amar como ele próprio nos amou. Nesse sentido, a condição necessária para amar na perspectiva de Deus é a lealdade, o compromisso, a obediência (v.10 e 14). 

Mas não é contraditório relacionar “amor” com “obediência”?

A Bíblia nos conta que, no Jardim do Éden, nossos primeiros pais foram confrontados com a morte caso desobedecessem as orientações de Deus (Gênesis 3). Bem, eles desobedeceram. A que tipo de “morte” eles foram submetidos? A resposta é: ao “exílio”, à ausência (não presença) de Deus e de seus propósitos. Essa realidade marcou toda a vida da descendência de Abraão, impedindo o cumprimento dos propósitos de Deus para o mundo. Apenas pela obediência de Jesus, a “videira verdadeira”, tudo se cumpriu (Cf. Romanos 5.19; Filipenses 2.8 e Hebreus 5.8-9). Obediência, assim, leva a humanidade a expressar a imagem e semelhança de Deus e a desfrutar da vida plena junto de toda a criação (Romanos 8). Já a desobediência leva a humanidade e a criação ao “exilio”, à manifestação de um mundo longe de Deus e de seus propósitos.

Outra perspectiva que ajuda a compreender a orientação de Jesus é perceber o mandamento como uma orientação vital, relacionado a uma prática disciplinada para gerar vida. Assim como a ira de Deus não é a nossa ira (no sentido da revelação da Bíblia, “ira de Deus” significa a interferência soberana de Deus em relação ao mal e não uma explosão impulsiva carregada de rancor), a “ordem” de Deus não traz a ideia da obediência como um fim em si mesma. É mais a expressão de zelo amoroso, o qual conduz àquele que obedece à vida proposta por Deus.

Por isso, creio, Jesus relaciona a questão do amar com o obedecer (v.14). A obediência de Jesus marca o seu compromisso com a vocação e os propósitos de Deus. Obedecer, aqui, significa ser fiel, crer, confiar, entregar a vida para que a redenção de toda a criação aconteça, segundo a vontade amorosa do Criador. Quando Jesus ama, ele não pensa em si, mas em tudo o que Deus sonhou para a humanidade e para a criação. Todos os seus pensamentos, atos e sentimentos são trabalhados para esse fim. Jesus deseja para nós o melhor que o amor pode dar: a verdadeira humanidade dentro de uma criação redimida em amor. Amar, então, é obedecer e obedecer é amar. Não há contradição aqui.


A questão, perceba, não é simplesmente obedecer por obedecer, para fazer qualquer coisa. A questão não é obedecer a qualquer um ou a qualquer ordem. A questão é obedecer a Jesus, seguindo suas orientações pelo compromisso que se tem com ele; é confiar que sua orientação nos leva à vida. Por isso o amor não pode ser confundido com sentimentos ou atos de bondade: ele está mais relacionado à aliança de Deus conosco, ao seu compromisso de nos dar vida. O convite (ou a ordem) de Jesus, então, é para que tenhamos o mesmo procedimento e nos comprometermos com o projeto maior de transformar o mundo através do amor de Cristo. Quando isso acontece, produzimos frutos perenes, cuja evidência é a resposta positiva de nossas orações (v.16), pois vivemos em sintonia com Deus e seus propósitos.

Como posso fazer isso na prática?

Ampliar nosso conceito e nossa prática de amor não vai ser fácil. Mas é possível. O Espírito Santo nos auxiliará em toda a jornada (João 15.26). Comece, então, trabalhando com sua motivação. Procure agir com o intuito de encontrar soluções para os problemas a sua volta e não para obter qualquer tipo de benefício. Muitas vezes, apenas amamos se recebemos amor em troca. 

Faça diferente: pela fé, ame como Jesus, a fim de trazer o mundo de Deus para a sua realidade. Então, em vez de brigar impulsivamente com o seu filho ou o seu cônjuge, busque através de palavras, ações e orações criar um ambiente de paz para solucionar os problemas. Em vez de devolver a ofensa a um colega de trabalho ou a um amigo, entregue-a para Jesus em oração e resolva a situação com maturidade. Se você está prestes a infringir uma lei para obter mais lucro em um negócio, busque em Deus uma saída honesta e perceba que o reino de Deus é estabelecido a partir de pequenos gestos (Cf. Mateus 13.31-33). 

Portanto, através do amor inspirado e ofertado por Jesus, traga perdão onde muitos desejariam vingança; traga paz em ambientes marcados pela raiva; seja corajoso em Deus em situações que muitos pensam em fugir; busque a justiça em relação a causas onde muitos já perderam a força de lutar. Em todas as coisas seja guiado pela serenidade e pelo bom senso. Em todo momento, ore e entregue a situação ao Justo Juiz (aprenda a fazer isso orando os Salmos). Creia nas orientações de Jesus como fonte de alegria e de vida (v.11).

Uma palavra final. No coração disso tudo está a humildade em reconhecer quem é o responsável por tudo: “vocês não me escolheram; eu escolhi vocês” (v.16). Por isso que seguir a Jesus não é uma “religião”. É um relacionamento pessoal de amor e lealdade com aquele que tem nos amado mais do que nós podemos imaginar. E o teste desse amor e lealdade permanece o simples, profundo, perigoso e difícil mandamento: amar um ao outro.


Pr. Vinicius

Leitura recomendada: N.T. Wright, NT for everyone.

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