Jesus era paranoico?
Como de futebol, hoje em dia a maioria de nós tem certa noção de psicologia. Mesmo sem precisão técnica, falamos com naturalidade a respeito de neuroses (transtornos emocionais), fobias (medo exagerado) e paranoias (mania de perseguição). Nesse último caso, parece que alguma coisa ruim sempre vai acontecer conosco; pessoas nos odeiam e vão nos pegar.
Por causa desse tipo de generalização, podemos ter a impressão de Jesus ter desenvolvido algum tipo de paranoia. O problema é que, às vezes, o “paranoico” pode estar certo. Nas palavras de Jesus: “O mundo vai odiar vocês”; “o mundo perseguirá vocês”; “o mundo é culpado e odeia a mim e a meu pai tanto quanto odeia vocês”.
Infelizmente, para desconsolo daqueles que prefiram uma versão mais light de cristianismo, uma das marcas da igreja é a perseguição e o sofrimento. O contexto de todo o capítulo 15 é preparar os discípulos para as inevitáveis “podas” a que eles serão submetidos. Isso significa que não podemos nos surpreender com a reação do mundo.
O problema é que não percebemos “ódio” contra nós em nosso dia a dia. Onde vivemos, ser chamado de cristão pode gerar, no máximo, algum tipo de deboche. Mas isso acontece porque associamos “ódio” apenas com nossos problemas de relacionamento, quando existem emoções à flor da pele. Ou o associamos aos países perseguidos, onde questões político-partidárias e a rivalidade com o ocidente marcam o conflito contra os cristãos.
Então, não damos o devido valor ao que Jesus está dizendo. Achamos, na prática, um pouco de exagero de Jesus.
A solução para essa questão está em uma pergunta simples que geralmente nos escapa.
Quem era o mundo, cheio de ódio, do qual Jesus estava falando?
Era o mundo pagão, da cultura grega e romana; o mundo de César?
Não!
O mundo referido por Jesus era o mundo onde ele havia nascido e vivido, o mundo da Galiléia e Jerusalém, de galileus e judeus. Era o mundo dos filhos de Abrãao, pessoas que estudavam e conheciam a Lei de Moisés. Era o mundo que pensava a cerca de si mesmo como o povo de Deus. Esse era o mundo que olhava para Jesus e via os seus feitos; ouvia o que ele dizia e respondia: não, obrigado! Esse era o mundo que viu o cego ser curado e permaneceu cego (João 9).
Então, quem estava sendo paranoico? Era Jesus? Ou era o “mundo” que viu o príncipe da paz como ameaça, o Senhor do Amor como alguém para odiar?
Com certeza, os grandes conflitos de Jesus eram com os religiosos de seu povo, afinal, ele veio para as “ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 10.6; 15.24). A imagem da “videira verdadeira” (v.15.1) contrasta de forma dramática com a videira que produz frutos de má qualidade (Isaías 5).
Então, quem estava sendo paranoico? Era Jesus? Ou era o “mundo” que viu o príncipe da paz como ameaça, o Senhor do Amor como alguém para odiar?
Com certeza, os grandes conflitos de Jesus eram com os religiosos de seu povo, afinal, ele veio para as “ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 10.6; 15.24). A imagem da “videira verdadeira” (v.15.1) contrasta de forma dramática com a videira que produz frutos de má qualidade (Isaías 5).
Eis, portanto, a raiz do problema: não compreendemos o chamado de Jesus.
Uma nova realidade...
Mas, Jesus revela uma nova realidade através de seu exemplo. Assim como ele nos desafia a amar como ele amou (João 15.12), ele nos avisa que seremos odiados como ele foi (João 15.20).
A questão não é ser odiado simplesmente, como um fim em si mesmo. Isso traz arrogância e verdadeira paranoia. Pedro, mais tarde, nos ensina que o sofrimento deve vir por fazermos o bem e não o mal (1Pedro 4.15). O ódio a Jesus veio porque ele confrontou toda uma visão de mundo, o qual, sem dúvida, iria gerar mudança em como todos enfrentariam a dura realidade de suas vidas.
Na mensagem de Jesus, o reino de Deus apontava para amar os inimigos e não para dominá-los; para caminhar a segunda milha e não buscar os seus próprios interesses; para dar a outra face e estabelecer a nova era do perdão e não buscar a vingança impulsiva; para conquistar pela subversão e não pela coerção. E mais, Jesus ensinava que o Messias iria conquistar seu objetivo através de sua morte e ressurreição e estabelecer o seu reino de amor pela graça e não pela lei. Isso era demais para eles.
Uma das grandes questões propostas por Jesus aqui, portanto, é a redefinição da cosmovisão dos discípulos. Em outras palavras, Jesus está revolucionando a forma através do qual os seus seguidores devem enxergar o mundo.
O sistema religioso onde eles foram criados e formatados estava equivocado. As Escrituras e as promessas de Deus foram deturpadas. “Creiam na Boa Notícia”, anunciava Jesus. “O reino de Deus chegou! Arrependam-se; abandonem o sistema antigo e vivam a nova realidade que será estabelecida em e através de mim.” (cf. Marcos 1.15).
Isso nos leva a mais um detalhe importante no texto que geralmente nos escapa.
“Vocês não são desse mundo!” (v.19)
Infelizmente, a tradução desse texto na maioria das versões da Bíblia nos induz a pensar equivocadamente. No grego, a expressão ek tou kosmou toutou significa “vem desse mundo” e não “é desse mundo”. O reino de Jesus, então, não veio desse mundo, ou seja, não se origina no contexto da cosmovisão e da ordem do mundo. E, por extensão da missão, se refere a todo lugar da terra onde os discípulos anunciarão que o Deus criador se fez rei em Jesus e é o legítimo rei do mundo (Atos 1.8).
Isso nos leva a perceber que não existe uma guerra entre pessoas “espirituais” e pessoas “mundanas”. O mundo não é um inimigo, mas um contexto que necessita ser redimido em Jesus. Esse tipo de pensamento é alimentado pela ideia de que habitamos em um mundo mal, cujo destino será a destruição, enquanto alguns vitoriosos serão levados para outro lugar, no céu. Há muito a falar sobre isso, mas é importante lembrar que a Nova Jerusalém desce do céu e se estabelece na terra (Ap 21.1-2). O futuro do mundo, portanto, é a nova criação conquistada em e através de Jesus. Os que estiverem em Cristo, serão surpreendidos pela esperança da ressurreição.
Isso já é uma grande mudança de cosmovisão...
Isso já é uma grande mudança de cosmovisão...
A orientação para os discípulos, então, não é para eles se manterem afastados do mundo como um grupo privilegiado de salvos. Como a oração de Jesus diz, os discípulos não devem ser retirados do mundo, mas serem livres do mal (Jo 17.15). Portanto, como o reino do próprio Jesus (João 18.36),os discípulos são para o mundo, enviados para dentro dele, como Jesus foi, a fim de serem testemunhas do amor de Deus e trazer a sua vitória.
Algumas questões práticas a considerar
Será que você se deu conta da proposta revolucionária de Jesus? Será que compreendeu a cosmovisão bíblica? Será que está disposto a viver a partir da cosmovisão revelada em e através de Jesus?
Com tem sido sua postura no dia a dia? Você tem anunciado a chegada do reino de Deus em e através de Jesus? Um reino de paz, alegria e justiça no Espírito Santo? Um anúncio que convoca todos os homens e mulheres do mundo a se arrependerem: abandonar sua cosmovisão e seu estilo de vida para adentrar no mundo do único e verdadeiro Deus?
E na sua família? Você tem criado um contexto onde a realidade de Jesus se faz presente, mesmo diante de injustiças contra você ou de algum membro da família? Em vez de cultivar a ofensa, você tem acreditado no perdão e na restauração? Lembre-se que a família de Jesus também se opunha a ele (Mc 3.22).
Perceba que a família é apenas uma realidade. Quando se é fiel nas pequenas coisas, também se é nas maiores. Depois, é a realidade do seu trabalho que começa a ser afetada. Enfim, a sociedade e o mundo. O ódio virá, com certeza, em todas essas esferas. Deboches e menosprezos talvez sejam as perseguições mais suaves.
Em cada situação de tensão e dificuldade que você passar, no entanto, coloque-se dentro do mundo de Deus em Jesus. Aponte para sua realidade, através de uma reação adequada. À semelhança dos salmos, exponha as indignações diante do justo Juiz.
Em cada situação de tensão e dificuldade que você passar, no entanto, coloque-se dentro do mundo de Deus em Jesus. Aponte para sua realidade, através de uma reação adequada. À semelhança dos salmos, exponha as indignações diante do justo Juiz.
E, atente para o mais importante: essa obra é realizada pelo próprio Deus. Não há mérito humano. A vitória é e sempre será de Jesus, implementada no poder do Espírito. Ele é o “auxiliador”, através de quem os discípulos são consolados, capacitados e orientados (v.26).
Pr. Vinicius
Leitura recomendada: NT Wright, NT for everyone

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